EDITORIAL
A
HORA DA JUSTIÇA
Somente
agora o sr. Wagner Canhedo será notificado para que substitua
as insuficientes garantias que ofereceu para cobrir a dívida
de US$280 milhões, assumida quando comprou o controle
acionário da Vasp.
A superavaliação dos bens
dados em garantia é fato conhecido há muitos dias. A
decisão do governo do Estado de São Paulo de exigir a
complementação das garantias data, por igual. de outros
tantos dias.
Tudo ficou. no entanto, em mero falatório, do
que se aproveitou o sr. Canhedo para deixar as coisas como estavam.
No caso Vasp, dias perdidos custam centenas de milhares de dólares
ao contribuinte paulista, que, em última análise, paga
pelas ousadias do sr. Canhedo.
Em contrapartida as providências
que dependem de quem faz política ou tardam ou avançam
milimetricamente. A defesa eficiente do interesse coletivo vem de
outra parte.
O sr. Canhedo se beneficia de sua a associação
com o ex-governador Orestes Quércia. Este, sim. é um
freio de mão levantado, na apuração das
irregularidades cometidas no processo de privatização
da Vasp. A CPI instaurada na Câmara dos Deputados para apurar
tais fatos acabou esvaziada por obra da tropa de choque do sr.
Quércia, que também a tem. E as investigações
que a Assembléia Legislativa quer fazer de atos dos governos
Quércía e Fleury esbarraram num prosaico debate mantido
pelo Conselheiro Roque Citadini, do Tribuna de Contas do
Estado(TCE).
Segundo o conselheiro, o TCE não boicota
as investigações; apenas não envia as
informações sobre supostas irregularidades porque a
Assembléia não as pede. A infeliz explicação
do conselheiro Citadini não esclarece o caso em tela, mas
revela tudo sobre a extravagante natureza política que o TCE
adquiriu depois que lá foram encarapitados os amigos fiéis
de Quércia.
O caso Vasp, porém, começa a
sair das esfçras política e administrativa, onde o
ex-governador pôde praticar seus jogos malabares. O presidente
do Sindicato Nacional dos Aeronautas ajuizou ação
popular, na qual pede a anulação da venda da Vasp e o
ressarcimento, pelo sr. Wagner Canhedo. dos prejuízos havidos
pela União e pelo Estado de São Paulo em conseqüêencia
do negócio.
A ação foi iniciada depois
que seu autor verificou que, na CPI, os interesses políticos
do presidente do PMDB prevaleceram sobre quaisquer outras
considerações. O primeiro efeito da mudança de
foro já se fez sentir. O juiz da 28a. Vara Federal do Rio de
Janeiro determinou ao Banco do Brasil e ao Banco do Estado de São
Paulo que expliquem as operações que culminaram com a
transferência para Canhedo do controle acionário da
Vasp, bem como o refinanciamento da dívida da empresa.
A
tropa de choque quercista foi suficientemente forte para impor na
Câmara dos Deputados e na Assembléia Legislativa um
silêncio semelhante à omertá. Tal poder
não deve alcançar uma vara da Justiça Federal no
Rio de Janeiro. Lá, o véu de mistério que cobre
esse negócio começará a ser levantado.
(O
Estado de S. Paulo, Editorial, 14/12/1992, p. 3)