MARKETING
MUITO
PATROCÍNIO MATA O ESPORTE
HELCIO
EMERICH
Colunista da Folha
Irretocável
a decisão recente do Tribunal de Contas do Estado proibindo
as estatais de patrocinar equipes esportivas.
O parecer do TCE
se limita àquelas empresas prestadoras de serviços, sem
concorrentes e que têm monopólios de mercado para
distribuição de água, energia elétrica
etc). Como qualquer empresa, elas precisam zelar pela sua imagem.
Mas imagem se constrói com bons produtos, bons serviços,
respeito ao consumidor e (promovendo esses valores) com comunicação
integrada, regular, útil e inteligente.
Os protestos
contra a proibição nada mais sugerem do que interesses
contrariados. "O dcsenvolvimento do esporte amador vai ser
prejudicado", escreveu um pacóvio qualquer, omitindo o
fato de que as empresas estaduais, com algumas exceções,
vinham aplicando recursos em caríssimas equipes profissionais,
para benefício de um elite de cartolas e empresários do
esporte. As estatais ajudariam melhor o esporte amador se
patrocinassem campanhas contra a desidratação, a
paralisia infantil, a cola de sapateiro e assim por diante.
A
Sabesp, por exemplo, financiava o time de basquete de Franca, cidade
que ficou “abalada” com a medida do TCE.
Cabe
perguntar, primeiro: por que Sabesp/Franca e não
Sabesp/Protunduva, Jurupeba ou outra cidade qualquer?
Segundo: por
que as centenas de indústrias de calçados de Franca não
se cotizam para prestigiar o basquete local? O apreço da
iniciativa privada pelo esporte é uma balela. Em crise,
danem-se os patrocínios (é mais uma razão para
que o encargo não seja transferido para o dinheiro
público).
O marketing de que o espore precisa é
o marketing da paixão.
Isso significa antes de mais
nada preservar o conceito de clube, com sua origem, história e
seus vínculos com alguma comunidade.
As empresas estatais
ou particulares esmagam essa identidade quando substituem nomes,
símbolos e tradições dos clubes por um festival
comercial de marcas e logotipos.
E ainda esperam que um torcedor
seja capaz de amar e ser fiel a um time chamado Cesp, Frangosul ou
Constecca.
Não é a escassez, mas o excesso de
patrocínio que está matando os ideais do
esporte.
HÉLCIO EMERICH é jornalista,
publicitário e vice-presidente da agência Almap/BBDO
(Folha de S. Paulo, 4/2/1992, p. 3-3)