GÁS
NATURAL PERMITIRÁ INDUSTRIALIZAÇÃO LIMPA EM SÃO
PAULO
ROQUE
CITADINI
Um
dos grandes desafios que São Paulo vem enfrentando nos últimos
anos reside na dificuldade de encontrar formas viáveis de
elevar, até mesmo manter seus níveis de
industrialização. Entre essas inúmeras
dificuldades, assume dimensões consideráveis a questão
das fontes de energia. Várias regiões do estado
caminham para a saturação dos recursos energéticos
naturais ou ultrapassam, como e principalmente aregião
metropolitana, nos limites suportáveis de agressão ao
meio ambiente em decorrência da poluição
industrial.
Mas
o início da solução chegará em dezembro
próximo, quando o estado começará a receber gás
natural da bacia de Campos. Contrato assinado em fevereiro último
entre a Petrobrás e a Comgás assegura o fornecimento
inicial de 1,1 milhão de metros cúbicos diários,
volume que alcançará 3 milhões de metros
cúbicos/dia em dezembro de 1988. No momento, aproximam-se de
sua fase final as obras de construção do gasoduto
ligando a refinaria Duque de Caxias, no Rio, às estações
da Comgás em Suzano e Capuava. Por seu lado, a Comgás
está executando um programa de ampliação de sua
rede de distruibuição, de forma a torná-la
compatível com a nova matriz energética.
A
introdução do gás natural em São Paulo
significará aquele início de solução da
questão energética, precisamente por possibilitar o
equacionamento das diversas variáveis do problema, sem o velho
e tradicional inconveniente de resolver de um lado e complicar de
outro.
O
gás natural terá impactos positivos, tanto no que se
refere à qualidade do meio ambiente quanto à economia
de divisas na substituição do petróleo importado
e nos benefícios no que se refere à melhoria de
processos industriais e vida útil de equipamentos.
O
benefício maior, a meu ver, da introducão do gás
natural será a possibilidade de, finalmente, se conciliciar
desenvolvimento com preservação ambiental. Por ser um
combustível nobre e puro, o gás natural não
provoca poluição. Sua substituição por
derivados de petróleo contribuirá decisivamente para a
diminuição, e até mesmo eliminação,
da poluição ambiental. Um dado simples comprova esse
fato: cada milhão de metros cúbicos de gás
natural pode substítuir, por exemplo, a queima de cerca de 900
toneladas de óleo combustível em indústrias. Ou
seja, elimina o lançamento de algo em torno de 90 toneladas
diárias de dióxido de enxofre na atmosfera da Grande
São Paulo. Esse benefício, aliás, será
sentido imediatamente após a introdução do gás
natural. A Comgás já assinou convênios com 67
indústrias da região metropolitana para fornecimento de
gás natural em substituição aos derivados de
petróleo utilizados atualmente. Ressalte-se que essa
substituição não exigirá adaptações
ou mudanças onerosas nos equipamentos industriais. Ao mesmo
tempo, por sua pureza, o gás não provocará
nenhum tipo de corrosão nesses equipamentos, aumentando,
portanto, sua vida útil. Além desses fatores, tornará
possível a racionalização de processos
industriais, melhorando, conseqüentemente, a produtividade.
Outro
aspecto fundamental será a economia de divisas pela não
importação de petróleo. Cada milhão de
metros cúbicos de gás natural equivale a cerca de 6.500
barris de petróleo. Ou seja, somente a primeira fase da
distribuição do gás natural em São Paulo
- 1,1 milhão de metros cúbicos por dia - substituirá
o equivalente a 2,6 milhões de barris de petróleo por
ano. A partir de 1988, essa substituição será da
ordem de 7,1 milhões de barris por ano. O Plano Nacional de
Gás Natural, elaborado por grupo de trabalho instituído
no âmbito da assessoria técnica da Comissão
Nacional de Energia, estima que o Brasil poderá consumir, em
1995, cerca de 35 milhões de metros cúbicos diários
de gás natural. Ao se alcancar essa meta, o País
deixará de importar 227.500 barris de petróleo por dia,
o que significará uma economia de US$ 1,6 bilhão
anuais.
A
dúvida que pode ser levantada será quanto às
reais disponibilidades brasileiras de gás natural. Essa é,
a meu ver, uma dúvida praticamente superada. Como, aliás,
vem acontecendo em todo o mundo, as reservas brasileiras de gás
natural já se situam em níveis bons e novas jazidas
estão sendo descobertas.
Outro
dado simples comprova esse raciocínio: em 1979, as reservas
nacionais situavam-se em torno de 43 bilhões de metros
cúbicos.
Atualmente,
ou seja, menos de dez anos depois, as reservas provadas estão
por volta de 93 bilhões de metros cúbicos e estimativas
conservadoras situam em cerca de 223 bilhões de metros cúbicos
as reservas possíveis. Novas descobertas estão sendo
feitas em vários pontos do Pais - do litoral nordestino à
Amazônia, de Campos à Bacia de Santos, onde se descobriu
gás a 160 quilômetros da costa paulista - o que abre
boas perspectivas de firme oferta futura de gás natural.
No que se refere a São Paulo, o gás, além de tornar possível a manutenção e até mesmo a elevação dos atuais níveis de industrialização da região metropolitana, afastando o risco de se submeter a área a traumático processo de desindustrialização em troca da necessidade e do direito de continuar respirando, contribuirá para a extensão do processo ao interior do estado. Da mesma forma que produzirá sensível diminuição da poluição em áreas de grande concentração industrial, o gás natural viabilizará a industrialização ordenada do interior sem agressões ao meio ambiente.
(*)
Presidente da Comgás.
(GAZETA
MERCANTIL, 8/7/1987, P. 4)