O Estado e o Katrina
Antonio
Roque Citadini
O furacão Katrina,
que recentemente abateu a cidade de New Orleans, nos Estados Unidos,
trouxe discussão acirrada entre defensores e opositores à
grande mania das últimas décadas, alimentadas pelo
mercado financeiro, para as mudanças do papel do Estado,
objetivando sua substancial redução.
Os defensores
do Estado-mínimo justificavam que estava muito alargado, com
atribuições e áreas de atuação
além de suas capacidades e com isso invadia esferas que
deveriam ser mais bem atendidas pela iniciativa e instituições
privadas.
Reformas empreendidas preconizavam e incentivavam —
quando não forçavam — as privatizações,
terceirizações, concessões de exploração
de certas atividades e eliminação de empresas
estatais.
O Estado devia reduzir-se quase somente ao núcleo
do poder, preocupar-se apenas com a moeda, com as relações
exteriores e, um pouco, com a segurança pública (esta,
mesma, grande parte “terceirizada” para as empresas
privadas de segurança). A lógica de tal mudança
seria reduzir o Estado, deixá-lo de tal maneira pequeno, de
modo que ficasse o “mercado” encarregado de resolver
todas as demais carências da sociedade.
Quase todos os
paises adotaram este modelo de reforma, alguns de forma radical,
outros menos fundamentalista.
Lembremos que a ação
do Estado cresceu, não por vontade determinada do próprio
Estado, mas, sim, por necessidade de construir uma infra-estrutura de
modo a poder atender e prover às necessidades da parcela mais
fraca das populações.
Assim, o Estado cresceu para
socorrer os carentes, parte dos hoje conhecidos como excluídos,
aos quais não eram dadas oportunidades para se instruírem,
habitavam onde não havia escolas, estradas e outros recursos
que lhes possibilitasse o exercício da cidadania.
É
importante considerar que as conseqüências do
Estado-mínimo, radical, fundamentalista, por tantos defendido,
afetam mais as pessoas marginalizadas (à “margem do
mercado”, como se diz), e não aparecem diariamente na
mídia.
Aparecerão — e aparecem, realmente —
nos momentos mais agudos de crises na sociedade.
O exemplo mais
significativo, e mais negativo e brutal, deste Estado-mínimo
apareceu recentemente, na região de New Orleans.
Abatidos
por uma terrível catástrofe, os Estados Unidos foram
surpreendidos com uma imagem que não acreditavam existir.
Para
fugir do caos, os ricos de New Orleans pegaram seus Cheroquees, seus
Mitsubishes, seus Chryslers, seus aviões particulares ou seus
helicópteros e evadiram-se dos locais que habitavam porque
estavam sendo atingidos pela tragédia que se abatera sobre a
então magnífica cidade.
Em contrapartida, os pobres
e os sem maiores recursos tiveram que ser socorridos pelo Estado. e o
foram pelo Estado-mínimo que os amontoou nos ginásios,
sem condução para sair da cidade, não lhes
restando senão assistir e enfrentar as intempéries, mal
acomodados, em total promiscuidade, mal alimentados, mal agasalhados,
mal assistidos em suas necessidades de atendimento médico,
espiritual, etc.
Estava bem centralizada a foto do darwinismo
social: os ricos sobrevivendo em regiões afastadas e os fracos
lutando pela vida em condições tão adversas.
O
mais grave ocorreu depois da passagem do furacão, quando a
solução e atuação do governo
orientaram-se por dois eixos: o exército, utilizado para
impedir saques; entidades particulares de caridade, para socorrer os
atingidos.
O que se viu, então, foi que ao Estado-mínimo
americano, tão louvado por vezes, faltou até estrutura
para “contar os mortos” e hoje, decorridos mais de seis
meses da tragédia, ainda supõe-se 3.000 desaparecidos
em New Orleans, falando-se em 10.000 no Estado, segundo ONGs,
americanas e internacionais.
O
que ocorreu, então, foi que ao Estado-mínimo americano,
tão louvado por vezes, faltou até estrutura para
“contar os mortos”.
A situação se
mostrou caótica, pois o governo não tinha meios nem
para retirar os mortos que boiavam ao léu.
Foi preciso
requisitar geladeiras de açougues, para guardar corpos, em
meio a pedras de gelo.
Hoje, decorridos mais de seis meses,
algumas das áreas atingidas, que foram abandonadas, ainda
estão sem energia elétrica, sem água encanada,
sem esgoto, sem calçamentos ou vias carroçáveis,
sem serviços essenciais, sem praças e equipamentos
públicos.
O Estado-mínimo brutal mostrou, assim, sua
face mais perversa: o Estado inexistente! Para suprema humilhação,
a única ajuda pública foi a caridade da Cruz
Vermelha.
Essa desastrosa situação é quase
surrealista quando se constata que o governo federal americano vem
gastando bilhões e bilhões de dólares tudo sem
resultado e sem organização adequada.
Guardadas as
proporções tivemos no Brasil o caso das enchentes no
Acre, recentemente, e Santa Catarina, há alguns anos.
Felizmente a população teve melhor
assistência.
Catástrofes como estas fazem aflorar a
grande discussão: se vale a pena reduzir o Estado a essas
proporções. Por certo a resposta é negativa,
pelo menos da forma como se tem pretendido fazer.
A redução
do papel do Estado há de guardar muita coerência com o
mínimo exigível para que possa atender às
necessidades básicas da população, combinando
isto com a permanente preocupação do governo não
só na melhoria da qualidade de vida de seu povo, mas, também,
no aparelhamento necessário à prevenção e
atendimento de situações inesperadas.
É
preciso que haja previsão e efetiva exigência do governo
para que os particulares que assumem atividades antes geridas só
pelo Estado estejam preparados para, nas situações
adversas, dar à população respostas adequadas e
a tempo.
O Estado tem sempre o dever de agir preventivamente e no
acompanhamento efetivo para que haja normalidade na vida da sociedade
ao permitir que particulares exerçam determinadas atividades e
deve fazê-lo sem se descuidar do controle que lhe cabe ter
sobre as ações que trazem conseqüências na
vida da população. Assim, a energia elétrica não
pode faltar porque a companhia particular está discutindo com
as seguradoras a indenização de seu prejuízo.
Não
é possível aceitar que o particular tenha concessões
e permissões para realizar atividades essenciais, obtendo
lucros desarrazoados e deixando ao Estado e à população
os custos financeiros e irreparáveis nas situações
adversas que surjam. Tê-los razoáveis exige efetuar
gastos de manutenção necessários à
permanente condição de aceitabilidade dos serviços
prestados e à previsão de ações de
emergência indispensáveis para a normalidade da vida da
população.
É inaceitável, assim, que,
enquanto o permissionário/concessionário não
mexe em seu lucro porque não realiza ações até
indispensáveis, preventivas e de manutenção, o
Estado seja chamado a agir quando ocorre uma situação
inesperada e aí tenha de dispender recursos que deveriam ser
destinados às áreas fundamentais, como saúde,
educação, habitação.
Reformar o Estado
é muito importante, mas sem caminharmos para um
Estado-katrina!
O
autor é conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São
Paulo e autor de livros, entre os quais “O Controle Externo da
Administração Pública”. E-mail:
citadini@citadini.com
(DCI, Opinião, 22 e 23/03/2006, p. A-2)