ARTIGO
A
DESCONFIANÇA DOS INVESTIDORES
Os
investidores do mercado de capitais ainda nem conseguiram se refazer
do susto que lhes deu a quebra da Enron e já foram
surpreendidos com a notícia da fraude contábil
praticada pela WorldCom, empresa americana e também de grande
porte. Significativo notar que o balanço fraudado tenha sido
auditado pela mesma empresa independente, a Arthur Andersen.
Desta
feita, a fraude praticada e de considerável valor - US$3,8
bilhões - revestiu-se de tamanha singeleza que, talvez por
isso, nem tenha sido imaginada pelos profissionais da auditoria
responsáveis pela validação do balanço
patrimonial da WorldCom.Entre outras, fica a lição que
auditoria é uma tarefa que não permite cega confiança
nos dados apresentados pela empresa auditada.
O
auditor precisa certificar-se de que os documentos que originaram os
lançamentos das receitas e das despesas guardam fidelidade e
merecem crédito.
Sem
dúvida, torna-se impraticável ao auditor examinar todos
os documentos, mas precisará aplicar técnica apropriada
e usar de perspicácia para detectar e
impedir a
prática de fraudes. O auditor precisa, também, ter
convicção que os lançamentos estão de
acordo com as normas técnicas aplicáveis e terá
de fazer isso para não oferecer um laudo de auditoria
enganoso.
Por outro lado, sabendo-se que a Arthur Andersen era, também, a empresa que prestava serviços de consultoria para a WorldCom, fica consolidada a lição da incompatibilidade que existe entre as atividades de auditoria e de consultoria.
Não
podem, as empresas de auditoria independentes, prestar consultoria a
seus clientes aos quais auditam. Há muito tempo venho
defendendo esta posição e agora, felizmente, já
posso ver que outras vozes se levantam concordando.
Já
se defende, agora, nos Estados Unidos, que a SEC (Securities and
Exchange Commission) - que corresponde à Comissão de
Valores Mobiliários, no Brasil - regulamente as atividades das
empresas de auditoria, proibindo-as de vender aos seus clientes
outros serviços, principalmente os da consultoria. No Brasil,
a CVM adotou regulamentação nesse sentido que foi
questionada judicialmente e, possivelmente por falta de clareza nas
contra-razões apresentadas, foi concedida liminar. Espera-se
que, no mérito, o julgamento mantenha a proibição
em tão boa hora aplicada.
A
evolução dos meios de comunicação,
proporcionando imensa rapidez na divulgação e troca de
informações, hoje globalizadas, é de
tamanha
grandeza que causa um certo desespero aos executivos e profissionais
que precisam tomar decisões. Não há tempo a
perder. O ganho precisa ser cada vez maior e sempre de modo mais
rápido.
Na
linha da obtenção do lucro cada vez maior caminharam,
também, as empresas de auditoria independente e encontraram
como filão a atividade de consultoria que prestam às
suas clientes auditadas. Prova disto é a notícia de que
a Arthur Andersen cobrou da WorldCom US$4,4 milhões pelos
serviços de auditoria e US$12,4 milhões pela
ccnsultoria.
Embora
o mercado de capitais seja de risco - que é maior, médio
ou mínimo, dependendo das inúmeras variáveis
aplicadas ao sistema -, o investidor há de ter certos
parâmetros nos quais confie. Os investidores não podem,
de forma alguma, contar com qualquer tipo de truque contábil,
que é, de longe, muito diferente do risco a que se propõem.
A
existência de truques compromete a confiabilidade - e precisam
ser combatidos e banidos, sob pena de desestruturação
do mercado.
Todos
os setores precisam estar atentos para isto, a fim de impedir sua
prática e os eventuais culpados devem ser severamente punidos.
É o que se espera.
ANTONIO
ROQUE CITADINI
(DIÁRIO
COMÉRCIO & INDÚSTRIA, OPINIÃO, 10/7/2002,
P.A-2)