PROBLEMAS
NA BOTA
As
dificuldades por que passa o futebol brasileiro são bastante
conhecidas e muito debatidas. As novas leis que vêm sendo
implementadas nos últimos anos (Leis Zico, Pelé,
Maguito, Estatuto do Torcedor) procurando redesenhar a própria
estrutura do futebol brasileiro.
Muitos
advogam uma mudança radical no modelo estrutural do futebol,
onde clubes se transformariam em empresas. Outros defendem a
manutenção dos clubes sem qualquer mudança, ou
com pequenos ajustes. Outros, ainda, como eu, têm defendido que
os clubes devem se modernizar, transformando-se para manter o sistema
de clubes e adicionando os componentes de transparência,
publicidade, auditoria e responsabilidade de gestão. Esta
discussão não está terminada e pode ter como
subsídios o que está ocorrendo num dos centros do
futebol-empresa, que é a Itália.
O
jornal Corriere della Sera desta última segunda-feira, dia 16,
traz um retrato alarmante do "calcio" italiano.
Depois
de a Liga italiana ter feito uma solene promessa de correta gestão
econômica, a ser exigida de todas as equipes para participar de
campeonatos, chega-se ao final da temporada com uma triste realidade.
Caso a Liga aplicasse aos clubes as regras preestabelecidas, não
haveria campeonato, pois nenhum clube estaria em condições
financeiras e contábeis de partir para nova temporada. Por
exemplo, a exigência de uma relação entre
Patrimônio Líquido/Ativo Patrimonial não inferior
a 0,5 foi por água abaixo, porque nenhum dos clubes tem
condições de cumprir este dispositivo do estatuto. O
que fez a Liga? Fechou os olhos diante da débil situação
dos clubes e disse que isto será exigido na temporada de
2004-2005. Assim, a quebra que já ocorreu com a Fiorentina
agora sucederia com todos.
A
promessa para 2004-2005 é de que o clube só poderá
gastar com salários 60% de sua receita. Neste momento esta
exigência atingiria a todos, pois grandes e pequenos não
têm condições de cumpri-la.
O
mais grave, no entanto, como nos informa o Corriere é que “o
mundo do futebol conquistou o primeiro posto no grande exército
da evasão fiscal”. Além das dificuldades
contábeis e deficiências no pagamento de salários,
as sociedades futebolísticas italianas, no caso todas são
empresas, acumulam débito com o fisco de milhões e
milhões de euros. O fisco italiano fechou os olhos e prometeu
que nas próximas temporadas isso vai mudar. Assim, o princípio
propagandeado pela Liga de que só disputaria campeonatos quem
estivesse em ordem com o fisco foi apagado, aplicando-se também
para a temporada de 2004-2005. O mesmo sucede na área da
previdência, na qual os clubes, inclusive os grandes da série
principal, acumulam dívidas e dívidas.
Isto
tudo ocorre depois de o governo italiano ter aprovado lei que
permitiu a maquiagem dos balanços, com o parcelamento em até
10 anos das perdas derivadas de desvalorizações de
contratos com atletas. Este benefício, na chamada Legge
spalma-debiti, já causou um "presente" de 800
milhões de euros para a sociedade esportiva. Sem a lei
aprovada, conforme bem esclareceu o jornalista Vittorio Malagutti na
matéria do Corriere della Sera, seria o “fallimento
automatico per tutte le squadre”.
Outro
grave acontecimento na Itália é o generalizado atraso
no pagamento de salários aos jogadores, muitos dos quais sendo
forçados a abandonar seus clubes ou o futebol.
Ficamos
assim: se forem aplicadas as regras os clubes não terão
condições de fazer campeonatos. Não faltou nada:
atraso no pagamento de salários, ajuda do governo, maquiagem
de balanços, nem fraudes ou omissão do Fisco.
Devemos
refletir sobre tais fatos, neste momento em que discutimos a
restruturação do futebol brasileiro; afinal, mudar os
clubes para o sistema de empresas não garante fim dos débitos
com o Fisco, e nem tampouco débitos salariais e
previdenciários. O caso italiano mostra que as empresas,
quando não são adequadamente fiscalizadas, cometem
idênticos erros de clubes sem fiscalização.
Por
último, precisamos destacar que esta situação
não é exclusiva da Itália, mas se espalha por
quase todos os países da Europa.
LE GRANDI
|
Datti in milioni di euro |
Stipendi su ricavi |
Monte stipendi |
Ricavi |
Ammortamenti |
Valore calciatori |
|
JUVE |
73,70% |
129,3 |
175,3 |
68,2 |
220,5 |
|
MILAN |
76,00% |
118,3 |
155,6 |
72,2 |
269,6 |
|
INTER |
106,30% |
133,6 |
125,6 |
105,9 |
300,7 |
|
LAZIO |
106,50% |
119,1 |
111,8 |
75,4 |
272,1 |
|
ROMA |
68,70% |
94,9 |
138,1 |
79,3 |
165,5 |
LE
PICCOLE
|
Datti in milioni di euro |
Stipendi su ricavi |
Monte stipendi |
Ricavi |
Ammortamenti |
Valore calciatori |
|
CHIEVO |
69,40% |
15 |
21,6 |
5,4 |
19,8 |
|
LECCE |
107,10% |
21,2 |
19,8 |
13,3 |
33,8 |
|
TORINO |
102,40% |
29,4 |
28,7 |
21,4 |
66,6 |
|
BRESCIA |
67,60% |
18 |
26,6 |
10,6 |
28,5 |
|
ATALANTA |
85,00% |
22,2 |
26,1 |
10,4 |
35,7 |
(Apud:
Vittorio Malagutti,“Un anno per sanare i conti del
pallone”,Corriere della Sera, Sport, 16/6/2003, p. 27)
ANTONIO
ROQUE CITADINI
Vice-presidente do SC Corinthians Paulista
16/6/2003
LEIA MAIS:
- Corriere della Sera, 16/6/2003: Un anno per sanare i conti del pallone. (Traduzido para Português) (PDF)