SOCIALISMO ÀS CUSTAS DO FUTEBOL
O
futebol brasileiro caminha para crescente profissionalização.
Os clubes, mesmo sem adotar a formula mágica da transformação
em empresas, dão-se conta de que a qualidade de seu produto é
atestada por um tipo de avaliação transparente, de
indiscutível veracidade: os olhos atentos do espectador ou
telespectador.
Esse
último está destinado a papel preponderante por sua
abrangência, muito além dos limites do estádio,
cidade, estado e mesmo país. Devo reconhecer que a estagnação
e até retrocesso da economia brasileira – PIB negativo
em 2003 – contribuiu para a mudança. Clubes de elite já
tinham estabelecido teto salarial e rejeitado contrato em moeda
estrangeira para atletas que voltavam ao país. O passo adiante
é a melhoria das receitas e a TV, como ocorre na Europa,
torna-se a principal fonte.
A
princípio sozinho, o Co-rinthians defendia remuneração
da TV, nos novos contratos, com base na audiência pública
de cada um. A nova diretoria do Flamengo também pensa assim e
seu presidente, Marcio Braga, é dos mais comba-tivos. O São
Paulo, clube que está entre os cincos líderes de
audiência, apóia. Com o sistema atual os clubes de elite
recebem proporcionalmente menos. Na prática subsidiam os de
menor torcida.
O
“pay-per-view”- pague para ver – e o Atlas da
Exclusão Social, recentemente divulgado, vieram mostrar que a
distribuição de renda no Brasil é das mais
desiguais. O Atlas, com base nos censos de 1.980 e 2.000, mais a PNDA
– Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, mostra que
nesse período o numero de famílias consideradas ricas
aumentou de 1,8% para 2,4% do total e que tais famílias estão
concentradas em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e
Belo Horizonte.
A
participação dessas famílias na renda nacional
subiu de 20 para 31% nos últimos 20 anos. O mapa do futebol
pago, segundo a Globosat, é quase igual. Os clubes campeões
de audiência são Corinthians (16), Flamengo (14), Vasco
(14), Palmeiras (9), São Paulo (8), Grêmio (5), Atlético
MG (4), Cruzeiro (3), Santos e Inter RS, ambos com 2% das
assinaturas. No Atlas, São Bernardo do Campo está na
frente de Porto Alegre e Curitiba, Santo André e Guarulhos na
frente de Salvador, Fortaleza e Recife. Os números absolutos
tornam mais gritantes a desproporção: para 443.462
famílias ricas da cidade de São Paulo, existem 15.182
famílias em Salvador e 12.615 em Recife.
Nada
contra Bahia e Vitória porém não há razão
para a TV pagar mais por seus jogos que pelos de Corinthians,
Flamengo, Vasco, São Paulo ou Atlético Mineiro. Há
mil maneiras de reduzir as desigualdades e por isso mesmo o futebol
profissional, que no passado, sem receita de TV, tinha os ingressos
tabelados pela SUNAB, não pode aceitar o papel de financiador
desse esdrúxulo socialismo.
ROQUE CITADINI
(O EXPRESSO, ALAMBRADO,
17/4/2004)