O
CORINTHIANS EM MOSCOU
Nem
nos tempos da guerra fria a viagem do Corinthians a Moscou receberia
o tratamento que lhe foi dado pela imprensa esportiva. Quando Moscou,
capital da União Soviética, era o centro irradiador do
comunismo, o esporte russo, especialmente o futebol, merecia
tratamento compatível com sua importância.
Tal
retrocesso talvez seja devido à raridade das excursões
de clubes brasileiros à Europa, conseqüência dos
calendários apertados das competições oficiais,
o que não acontecia no passado, como nos anos 60-70. A
coincidência do recesso em nosso Campeonato com a semana de
comemoração dos 856 anos da fundação de
Moscou tomou possível ao Corinthians reavivar o esquecido
intercâmbio.
Torço
para que a prefeita Marta Suplicy faça uma festa de
comemoração dos 450 anos de São Paulo igual ou
mais grandiosa que a de Moscou. Nossa cidade merece. A velha capital
russa, durante a primeira semana de setembro, toda embandeirada, foi
só alegria: concertos em praça pública, danças
folclóricas, desfiles, esportes, tudo que o moscovita adora. E
o Corinthians ocupou lugar de destaque nessa programação,
alvo de tratamento fidalgo das autoridades, imprensa, inclusive TV,
culminando com os aplausos da torcida moscovita no belo estádio
do Satum. Porque o jogo agradou à platéia.
A
Rússia atual conserva uma prática da União
Soviética no futebol, não muito diferente da adotada em
outros países europeus capitalistas. A dos clubes de empresa
ou com patrocínio estatal. E o caso do Saturn, clube da
Aeronáutica e que também tem apoio do Estado de
Moscou.
No
jogo de domingo, o que menos importava era o resultado, diziam nossos
anfitriões. Tratava-se de uma festa. Nem por isso os
brasileiros deixaram de se empenhar, na tarde de verão de
cinco graus, cientes de que tinham a responsabilidade de proporcionar
um bom espetáculo aos moscovitas. O juiz e um bandeirinha que
"esqueceram" o script foram punidos com as gargalhadas da
torcida às suas decisões mais esdrúxulas.
Da
nossa viagem ficou a lição de que a Rússia (como
a China) não pode ser ignorada sob nenhum aspecto.
Principalmente no futebol, o esporte de maior público e, por
isso mesmo, o campeão nos negócios de entretenimento.

A comitiva alvinegra em Moscou.
ROQUE
CITADINI
(O
EXPRESSO, ALAMBRADO, 13/9/2003)