Sócrates,
Vladimir, Casagrande e a democracia corintiana
Os
quase cem anos de vida de um clube de futebol como o Corinthians
oferecem matéria-prima para estudiosos de ciências
sociais de diferentes áreas, como historiadores, sociólogos
e até mesmo economistas, fazerem bons trabalhos. Criado por
gente humilde no então bairro periférico do Bom Retiro,
quando o futebol era um esporte de elite, conseguiu sobreviver com
dignidade e tornar-se um clube de prestígio internacional.
Talvez esteja na origem popular o combustível de sua pujança.
Diferente
dos clubes da época, vinculados às raízes
européias dos imigrantes que os formavam, os fundadores do
Corinthians rejeitaram a condição de clube de colônia.
Constituído majoritariamente por italianos e portugueses,
abriram as portas para imigrantes judeus, árabes, armênios
e até quis inscrever no seu time um jogador negro, Davi,
pretensão barrada pela liga oficial.
Na
década de 30 acolheu os nordestinos que vieram em massa para
São Paulo. Esse ecletismo está presente nas alcunhas
dadas ao clube: time de carroceiros, no início, porque o
presidente, Alexandre Magnani, dirigia tílburi; e
sucessivamente time de baianos, de pretos, e, pasmem, de maloqueiros.
Ao longo de sua história o time continuou inovador. Em suas
fileiras nasceu um movimento esdrúxulo para o ambiente do
futebol, a Democracia Corintiana.
Os
corintianos mais jovens não imaginam o apelo que a palavra
democracia tinha na época, no ocaso da ditadura militar. O
direito de greve fora restabelecido na marra, a Lei da Anistia
permitira a volta dos líderes políticos exilados. O
país vivia em ebulição, questionava-se tudo.
Nada mais natural que as formas de gestão do esporte mais
popular entrassem no jogo, especialmente no clube da massa.
Na
essência, a Democracia Corintiana pretendia mudar as relações
de trabalho no futebol, o fim das concentrações e a
participação dos jogadores nas decisões. Os
limites dessa participação não estavam claros e
provocaram reações, mesmo no Corinthians. O movimento
só teve grande repercussão porque os jogadores que o
encarnaram eram dignos de respeito também dentro do campo. A
começar por Sócrates, um dos maiores craques entre os
que vestiram a camisa do Corinthians.
Vindo
do Botafogo de Ribeirão Preto, formado em medicina, culto, foi
recebido carinhosamente, chamado Doutor Sócrates com sincera
reverência pelos torcedores. Jogador frio, foi capaz de se
impor à torcida e lhe ensinar como melhor incentivar o time,
pondo fim às correrias irracionais em direção ao
gol, ao sabor dos gritos da platéia. Por sua liderança
foi alvo de críticas dentro e fora do clube, acusado de
rebeldia, de pregar a anarquia no futebol, como a liberdade de fumar
e beber. Na realidade, as críticas deviam-se mais às
suas posições políticas e menos às
eventuais mudanças no futebol.
A
profissionalização das relações de
trabalho no futebol era o verdadeiro alvo. Sócrates disputou
297 jogos pelo Timão e fez 172 gols. Permanece no coração
do torcedor corintiano. Outra figura de relevo no movimento foi
Casagrande. Diferente do Doutor, formou-se nas categorias de base do
clube e chegou ao time principal em 1981, quando a Democracia
Corintiana estava em ascensão.
Rebelde,
ousado, irreverente, encontrou ambiente propício no movimento.
A torcida o adorava, chamava-o de Casão e ao lado de Sócrates
formou uma dupla inesquecível no ataque corintiano,
responsável pelas conquistas dos campeonatos paulistas de
1982/83. Casagrande foi o artilheiro da competição em
82; jogou 256 partidas pelo Timão e marcou 103 gols.
Vladimir
foi outro que contribuiu para tornar real a Democracia Corintiana.
Impossível separar jogador de clube. Nasceu nas divisões
de base, cresceu no time titular e é o recordista em jogos
pelo Timão: 803 partidas. Com a credencial de mais amado pela
Fiel contribuiu para dar legitimidade ao movimento e assim fazê-lo
vitorioso.
Seu
aval moral estava escudado em uma folha de serviços de craque.
Lateral esquerdo, marcava com precisão, apoiava de forma
eficiente e quando havia oportunidade finalizava. A Democracia
Corintiana é um movimento muito citado e pouco avaliado. Na
ocasião enfrentou oposição de dirigentes,
jogadores, jornalistas e das torcidas organizadas que não
combatiam a ditadura como hoje gostam de se vangloriar de o terem
feito. É natural.
O
conservadorismo e conformismo impregnam todas as sociedades, em maior
ou menor escala, em diferentes épocas. Também houve
receptividade ao movimento da parte de dirigentes, jogadores e
jornalistas.
Mas
o movimento só ficou na história com a imagem positiva
graças ao extraordinário time que o encarnou, o
inesquecível Timão do Sócrates, Casagrande,
Vladimir, Zenon, Biro-Biro e Juninho e outros craques mais...

ROQUE
CITADINI
(O
EXPRESSO, ALAMBRADO, 6/9/2003, p. 2º/11)