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INPS E OS CLUBES DE FUTEBOL
Encontra-se
em mãos do presidente Lula, para sanção ou veto,
uma nova MP de futebol votada recentemente pelo Congresso. Está
em jogo o futuro do futebol e dos clubes no Brasil, no auge do
confronto entre defensores de três modelos de organização
do esporte: alguns defendem a manutenção do atual
modelo de clubes; outros preferem adotar o modelo de clube-empresa; e
muitos optam por um modelo de clube adaptado à nova situação
do futebol, de um dos maiores negócios de entretenimento.
Antes
de entrar nesta polêmica, permito-me falar de outra, de
importância vital, a do destino do sistema de saúde
pública do Brasil. Originário do INPS, hoje INSS e SUS,
na década de 1960 o sistema de saúde e previdência
do Brasil adotou uma fórmula talvez única no mundo: os
trabalhadores da ativa pagam para sustentar um sistema de saúde
universal, que atende a todos, trabalhadores contribuintes e
desempregados. O caráter solidário do sistema é
o seu grande diferencial, seu ponto alto. Nesse período o
sistema de saúde publica generoso, como seria natural,
acumulou virtudes e vícios.Os críticos do INPS não
esquecem os desvios de verbas, contratos superfaturados, cirurgias
feitas somente no papel, etc. Outros criticam as filas nos hospitais,
o inaceitável tratamento de doentes em macas nos corredores,
as justas reclamações de usuários, contribuintes
ou não. E advogam sua extinção. Como no futebol,
querem uma mudança radical: um sistema de planos de saúde
para os que pudessem pagar e os demais, os mais pobres, seriam
atendidos em hospitais públicos. O governo então se
desvencilharia de um problema que hoje fere profundamente o ex-INPS:
a diminuição de numero de trabalhadores registrados, e
o aumento da mão-de-obra informal, com a conseqüente
queda da arrecadação. Para tapar o buraco o governo
criou a CMPF, mas o dinheiro teve outro destino. Mesmo com esta
enxurrada de criticas pelas imperfeições e desvios,
creio que o modelo INPS é o mais justo e mais de acordo com o
dever de solidariedade social. Deve ser mantido e revigorado, com o
Estado colocando verbas orçamentárias de outras fontes
até que a economia retome o crescimento e a arrecadação
dos trabalhadores da ativa e das empresas volte a equilibrar o
sistema. Os desvios, as roubalheiras, corrupção ou
falsificação não devem servir de justificativas
para virarmos de ponta-cabeça um modelo solidário tão
necessário ao Brasil em sua condição de país
pobre.
Volto
aos clubes. O modelo do futebol brasileiro sustenta-se em clubes,
formados com finalidades múltiplas, para proporcionar lazer e
esporte a seus associados. Muitos evoluíram a ponto de criar
grandes times profissionais. Com erros e acertos, os clubes juntaram
jogadores, torcedores, empresas, organizaram campeonatos, federações,
e deram o status que o futebol brasileiro possui e é conhecido
em todo o mundo. O lado bom foi a construção de times
fantásticos, a revelação de jogadores notáveis,
até mesmo gênios, e conquistas que inigualáveis
por qualquer outro país. O lado ruim fica por conta de
incontáveis más-gestões nos clubes, escândalos,
exploração de jogadores e campeonatos mal organizados.
O que fazer para consertar o que estiver errado? Agir, como desejam
certos críticos do INPS, sepultar um modelo e construir outro?
A mudança radical no futebol, sonho de alguns, é a
transformação de clubes em empresas.
Tal
modelo, o clube-empresa não tem garantia alguma de resultado
positivo. Em paises ricos alguns poucos clubes dão-se bem,
como Manchester United e Arsenal. Outros vivem situações
de penúria tão nossas conhecidas. O modelo de empresa
não elimina sequer os vícios que as algumas agremiações
brasileiras têm, como desvios ou negociatas. Invasão de
dinheiro de origem duvidosa e gestão de administradores
inescrupulosos tem sido freqüente em clubes europeus. É
inegável que assim como o INPS os clubes precisam mudar. Tanto
lá quanto cá defendo que o modelo vigente deve ser
reformulado e revigorado. A atividade de futebol, hoje claramente
voltada para o mercado, deve ser separada daquelas inerentes aos
clubes sociais, com publicação de balanços
periódicos, auditoria e transparência nos atos dos
administradores.
Tal
mudança é revolucionária, embora não
jogue fora a história dos clubes, no geral realmente digna de
culto. Esse caminho levará os clubes a renovar e ampliar sua
contribuição para a grandeza do futebol brasileiro.A
contra-partida virá, como no passado e no presente, dos
exigentes amantes do futebol brasileiro.
ROQUE
CITADINI
(O
EXPRESSO, “ALAMBRADO”, 3/5/2003)