GOVERNO
E ESPORTE NEM SEMPRE SE DÃO BEM
Quase
nada escapa à ação do estado, ou melhor, dos
detentores do poder, em qualquer sociedade. O esporte, especialmente
um esporte de massa como o futebol, muito menos.
No
passado, quando a força física era fator decisivo nas
contendas, o poder dava grande atenção à
educação física e à prática do
esporte. As mudanças na arte da guerra refletiram-se também
no esporte.
As
vitórias nas competições esportivas ganharam
status equivalente às consegui-das nos campos de batalha.
Durante a guerra fria os Estados Unidos lideraram um boicote às
Olimpíadas de Moscou (o Brasil não aderiu, ao contrário
de Argentina e Chile) e a União Soviética fez o mesmo
nas Olimpíadas de Los Angeles.
Entre
nós o esporte demorou a despertar a atenção do
governo. Em 1932, os atletas que iriam a Los Angeles representar o
Brasil nos Jogos Olímpicos, tiveram que vender café
para custear a viagem. Infelizmente as cotações estavam
em baixa e em conseqüência poucos puderam viajar.
Mas
Getúlio Vargas cedo descobriu as virtudes do esporte e criou a
Confederação Brasileira de Desportos, CBD, que teve o
futebol como carro chefe. Quando o Brasil entrou na guerra contra o
Eixo (Alemanha-Itália-Japão), o conflito atingiu em
cheio nosso futebol.
Alguns
clubes tiveram de mudar de nome (o Palestra Itália virou
Palmeiras) ou foram dissolvidos, e os estrangeiros afastados da
direção dos clubes, o que atingiu o Corinthians. Seu
presidente, em 1941, era o imigrante espanhol Manuel Correcher. Foi
afastado e assumiu seu lugar o capitão do Exército
Airton Salgueiro de Freitas.
Corintianos
e esportistas em geral ficaram revoltados com a violência.
Correcher de fato travava uma guerra pela conquista de títulos
para o Corinthians e em sua gestão o time foi tri-campeão,
com as vitórias em 1937-38-39.
A
Espanha, onde nascera, era neutra embora o ditador Franco tivesse
simpatia pelo Eixo. Mesmo sob intervenção o Corinthians
foi campeão em 41 e vice nos dois anos seguintes. Em princípio
sou até favorável. Essa intervenção
deveria se limitar às questões substantivas.
Por
exemplo, a proteção aos meninos que praticam o esporte
e são duplamente esquecidos: como crianças não
têm onde jogar, pois sumiram os campinhos de várzea;
como trabalhadores tornaram-se escravos de empresários e não
raro são exportados para a Europa em condições
parecidas com a dos africanos no passado.
ROQUE
CITADINI
(O
EXPRESSO, ALAMBRADO, 21/9/2002)