UMA AGENDA POSITIVA PARA O NOSSO FUTEBOL
Já
comentei a Medida Provisória sobre o futebol e elogiei seu
lado bom. Julgo chegada a hora de o governo saldar sua dívida
com o esporte e apresentar uma agenda positiva, capaz de por em nível
elevado a relação Poder Público/Clubes e não
só fazer exigências aos primeiros. Com todos os erros de
gestão, os clubes têm um balanço positivo a
apresentar à sociedade: cultivaram e fizeram prosperar um
esporte que é o cartão de visita nº. 1 do país.
A
agenda positiva, inadiável, deveria começar pela
eliminação da insegurança jurídica na
relação dos clubes profissionais com seus atletas,
provocada pelo diferente tratamento que o governo dá ao
direito de imagem. Atualmente os atletas fazem dois contratos com os
clubes: um, como pessoa física, pela CLT, igual o de qualquer
trabalhador de carteira assinada; outro, como pessoa jurídica,
relativo ao direito de imagem.
Para
alguns setores do governo tais contratos são legais, para
outros, não. Daí resulta a aplicação de
pesadas multas aos clubes e também conflitos trabalhistas
evitáveis (caso Luizão). É uma situação
que tem de ser enfrentada e decidida pelo governo, por fugir à
alçada dos clubes. Sem uma solução ficará
difícil para os clubes atrair parceiros e investidores. Outra
medida urgente é a solução para o contencioso
dos débitos fiscais.
Sou
contra qualquer medida que beneficie os inadimplentes, por
representar uma punição para os clubes que pagam os
impostos em dia. Se inevitável o parcelamento, crédito
equivalente, em iguais condições de juros e prazo
deveria ser oferecido aos clubes em dia, para financiamento de
infraestrutura.
O
governo já deveria ter acordado para a importância do
futebol no campo econômico, social e de promoção
do Brasil e ter aberto no BNDES linhas de crédito para
infraestrutura dos clubes, como centros de treinamento, vilas
olímpicas e estádios. E de imediato indenizar os clubes
pelas despesas feitas com as seleções, a começar
pela Seleção principal, a pentacampeã.
Antes,
a CBF pagava os salários dos atletas e também o seguro
nos períodos de convocação. A CBF simplesmente
deixou de pagar. O governo poderia ressarcir os clubes com bônus,
válidos para pagamento de impostos e contribuições
federais e cobrar da CBF.
Mazelas
no futebol sempre existiram. O insucesso na final da Copa da França
levou o Congresso a discutí-las em duas CPIs e o governo a
editar uma Medida Provisória para eliminá-las. A ação
do Congresso e do governo não pode limitar-se ao papel de
polícia.
O
Poder Público não deve ignorar o trabalho (e dinheiro)
dos clubes para formar os jovens que nas diversas seleções
projetam o país no exterior.
ROQUE CITADINI
(O EXPRESSO, ALAMBRADO, 27/7/2002)