FUTEBOL PENTACAMPEÃO EXIGE REFORMA NACIONAL

A festa acabou. Enquanto alguns ainda comemoram outros procuram tirar proveito da magnífica vitória. E a bola voltou a rolar em Belém e Teresina, para consagrar o Campeão dos Campeões. Longe dos gramados, em Brasília, outra disputa poderá representar para o futebol brasileiro vitória tão importante quanto a do Japão ou derrota capaz de causar frustração equivalente à da temida antecipação da viagem de volta dos canarinhos.

O futebol pentacampeão do mundo, fora do gramado, assemelha-se demais ao de 1931, quando aqui esteve um empresário do Lázio, malas cheias de dinheiro e levou consigo para jogar na Itália 39 craques. O Corinthians, tri-campeão paulista (28-29-30), o admirado e invejado Esquadrão Mosqueteiro, foi a principal vítima, perdendo nove jogadores, entre eles Del Debio, Demaria e Filó.

A investida italiana tinha propósito político. Mussolini, a princípio inimigo do futebol, um esporte estrangeiro, pior, de inglês, não conseguiu impor seu preconceito e para redimir-se tornou-se o grande promotor do calcio. Como a Itália seria o país sede da Copa do Mundo de 1934, decidiu formar uma “nacional” imbatível e para isso importou jogadores sul-americanos, sempre os melhores. E assim um brasileiro, Filó, extraordinário ponta direita, 24 anos, antes de Didi, Garrincha e Pelé, foi campeão do mundo mas pela Azurra.

Filó era Amphiloquio Marques Guarisi, um oriundi e nesta condição recebeu nacionalidade italiana e um lugar na Nacionale. A história repete-se agora. País pentacampeão e não sei mais se 10ª ou décima qualquer coisa economia do mundo, a desorganização é a mesma: calendário irracional, clubes endividados, dificuldades de encontrar patrocínio.

A Medida Provisória já em vigor, que no todo é positiva, não pode ter sua discussão reduzida à transformação dos clubes em empresa, a panacéia da vez. Portugal optou por esse caminho e deu-se mal. O Benfica é hoje um time inexpressivo, mais lembrado por suas dívidas e depoimentos dos dirigentes na Polícia e na Justiça que por feitos no esporte. Na Itália, a situação é complexa. Em estado falimentar encontram-se Fiorentina, Sampdoria e Nápoles. Outros clubes-empresa vão bem porque liderados por empresários ricos e com ambições de poder (Milan), ou ancorados em grupos poderosos, como a Juve de Turim, ligada a Agnelli ou Lazio, do Cirio.

Mas essa associação nem sempre leva ao paraíso. Se o carro-chefe vai mal, o futebol também sofre. É o caso do PSG, pressionado a vender Ronaldinho Gaúcho para atenuar as dificuldades de caixa da Vivendi. Há exemplos positivos, a maioria na Inglaterra. Os clubes disputam campeonatos bem organizados (não só na primeira divisão), rentáveis e podem lançar ações na Bolsa. A solução brasileira tem que ser buscada em nossas raízes.

Sou favorável à separação do futebol das demais atividades dos clubes. E da plena transparência, com a publicação de balanços verídicos. Eu repito verídicos, e auditados por empresas idôneas Mas é preciso levar em conta a realidade brasileira. O mercado dos clubes é estreito, embora o futebol seja o esporte mais popular. Pelo melhor futebol do mundo, o nosso, paga-se o ingresso mais barato. É impossível cobrar em São Paulo, Rio, Porto Alegre ou Belo Horizonte o que se cobra em Londres, Milão, Barcelona ou Munich.

O uso da marca em produtos também não proporciona receita comparável à da Europa, nem mesmo aos clubes de maior torcida. Os direitos de imagem também estão abaixo dos vigentes na Europa mas nossos clubes, para manter os jogadores que formam, são pressionados a pagar salários europeus. Outra desvantagem é a inexistência de um mercado de ações, fonte importante de capitalização de clubes europeus.

O brasileiro é inexpressivo e em lugar de atrair empresas está perdendo muitas das que estavam listadas. Se essas questões não forem levadas em conta nosso futebol continuará na década de 30 apesar da quinta estrela.

ROQUE CITADINI

(O EXPRESSO, ALAMBRADO, 20/7/2002)