HORA
DA MUDANÇA
O
futebol brasileiro está às vésperas de uma outra
batalha, tão ou mais importante para a continuidade de sua
trajetória vitoriosa como a da última Copa.
Trata-se
da mudança no estatuto legal do esporte proposta pela Medida
Provisória em tramitação no Congresso Nacional.
A MP veio em boa hora e terá o mérito de desbloquear o
debate sobre o destino de nosso futebol que já dura cinco anos.
É
bom que a questão seja colocada na ordem do dia após
uma vitória consagradora de nossa seleção,
quando prevalecem os humores benígnos, mais favoráveis
a decisões racionais. De minha parte destacaria na proposta,
como positivas, duas medidas: a que exige transparência na
gestão dos clubes profissionais, como a obrigatoriedade da
publicação de balanços e demonstrações
financeiras auditados por auditores independentes; e a separação
do futebol profissional das demais atividades dos clubes.
Ao
contrário, julgaria negativa a compulsória
transformação dos clubes em entidades comerciais. E
flagrantemente contraditória a que considera qualquer
sócio ou cotista de entidade de prática esportiva...
partes legítimas para representar ao Ministério Público
da União contra os dirigentes das mesmas entidades.
Nenhuma sociedade comercial, de capital aberto ou fechado, está
sujeita por lei a esse tipo de intervenção do
Ministério Público. O futebol brasileiro é fruto
da atividade dos clubes.
Os
clubes precederam as federações, confederações,
estado e são eles que propiciaram as condições
para colocar o Brasil na elite desse esporte. Aperfeiçoar a
legislação para prevenir e coibir a prática de
abusos é saudável mas seria uma ignomínia
instaurar um sistema de terror contra os clubes. Incompreensível
também a deificação da empresa.
Seja
no Brasil, na Rússia pós-comunista, nos Estados Unidos
ou em qualquer parte do mundo, há empresas boas e más,
empresas que cumprem ou que fraudam as leis. Fossem as empresas seres
divinos, a religião as sediaria no Olimpo. No caso da teologia
católica seria alterada a composição da
Santíssima Trindade. Uma olhada na última Copa mostra,
por exemplo, que a África tem excelentes jogadores, muitos
deles verdadeiros clones de craques brasileiros. O que lhes falta
para se igualarem a nós?
Clubes,
exatamente organização clubista. Essa organização
não pode ser destruída em nome de algo ainda impreciso
para não recair no velho hábito brasileiro de copiar
mal o que se faz lá fora. Nossa legislação sobre
a criança, por exemplo, no caso do trabalho é mais
restritiva que a européia, embora a maioria dos países
europeus proporcionem aos jovens escola gratuita em tempo integral. A
Medida Provisória fala muito de empresa mas não diz
nada sobre a condição dessas empresas.
Serão
abertas ao capital estrangeiro? Os atuais empresários poderão
comprar ou montar clubes? Curiosamente nada existe na MP sobre a
atividade desses senhores, os que mais lucram com as transferências
de jogadores e também com a gestão dos negócios
dos atletas. A Fifa impõe limites à atuação
dos empresários mas suas recomendações são
ignoradas no Brasil.
A
MP ignora igualmente outra recomendação importante da
Fifa, a da proibição de transferência de
jogadores com idade mínima de 18 anos. Como disse acima, o bom
humor proporcionado pela conquista da Quinta Copa cria condições
para um debate racional. Um pouco da determinação de
Ronaldo e da frieza de Rivaldo ao escolher o alvo no gol inglês
não faria falta nesta hora.
ROQUE CITADINI
(O EXPRESSO, COLUNA ALAMBRADO, 13/7/2002)