A
ÓPERA E O FUTEBOL TÊM O MESMO BERÇO
Na
assembléia de fundação do Corinthians por pouco
o clube não recebeu o nome de Carlos Gomes. Confesso que
fiquei surpreso com a descoberta, embora amante da Ópera e fã
incondicional do grande compositor. Mais tarde descobri porque homens
aparentemente rudes tinham tal admiração por Carlos
Gomes: eram italianos e a Ópera, nascida na Itália
quatro séculos antes continuava (e continua) arte popular,
como viria a ser o futebol, praticado naquelas plagas com regras
diferentes das atuais sob o nome calcio, o calcio fiorentino.
Um
esporte cultuado na mesma cidade onde nasceram Dante, Michelangelo e
Leonardo da Vinci e praticado por Julio de Medicis, Duque de Toscana,
e os papas Clemente VII, Leão IX e Urbano VII estava
predestinado a um destino glorioso. O futebol é o esporte mais
popular do Planeta e não há evento comparável em
audiência à Copa do Mundo.
Surpresa
ainda maior para mim foi descobrir que o mesmo homem que codificou as
regras do calcio reuniu os músicos e cantores que em animados
serões deram vida à Ópera: Giovanni di Bardi,
Conde de Vernio. A primeira ópera, Dafne, da qual não
existe partitura, foi cantada em Florença no Carnaval de 1597.
Seus autores, o poeta Ottavio Rinuccini e o compositor Jacopo Peri,
eram protegidos de Bardi e participantes das suas cameratas.
A
Ópera caminha para o seu quinto século, presente e
prestigiada em todo o mundo. A maioria das grandes cidades tem o seu
teatro de ópera e quem não pode freqüenta-los tem
a opção da TV, disco e vídeo. A arte do futebol,
antes mais fugaz que a música, também conta agora com o
recurso do audiovisual para multiplicar sua audiência. Um passe
de um grande armador, um drible, certos chutes ou cabeçadas
são obras de arte, indiscutivelmente.
Os
três tenores o perceberam ao se juntarem aos artistas do calcio
nas cerimônias de encerramento da Copa do Mundo.
ROQUE
CITADINI
(O
EXPRESSO, "ALAMBRADO", 22/6/2002)