JUIZ
DE FUTEBOL: UMA PROFISSÃO DE ALTO RISCO
Poucas
profissões são difamadas em escala equivalente a de
juiz de futebol.
Dificilmente
um político, por exemplo, expõe-se ao coro de vaias da
magnitude daqueles que explodem nos estádios. O juiz de
futebol não pode se esconder. Salvo nas peladas, sem ele não
há jogo. Com a experiência de advogado militante e agora
de juiz de um Tribunal importante, posso avaliar o grau de
dificuldade que tais juízes enfrentam.
O
que não exclui uma auto-crítica, pois como torcedor
também tenho meus pecados. De volta ao principal, cabe
recordar que o juiz, membro do Poder Judiciário, não o
árbitro de futebol, faz seu trabalho em um gabinete, com
livros, revistas técnicas e arquivos de jurisprudências
à sua disposição para consulta. As razões
das partes em litígio estão no papel e são
complementadas oralmente pelos respectivos advogados, durante as
audiências. Suas decisões estão sujeitas a
revisão em instâncias superiores (os tribunais), no todo
ou em parte.
Isto
é, se uma parte se julgar prejudicada, pode recorrer à
instância superior para tentar mudar ou mesmo anular a
sentença. E Sua Senhoria o árbitro de futebol? Ele
trabalha sob sol, chuva ou neve, diante de grandes e irreverentes
platéias. É obrigado a movimentar-se continuamente, de
olho na bola e também nos 22 jogadores. Sua decisão tem
de ser instantânea.(A instantaneidade poderá cedo ou
tarde ser exigida também dos demais juízes, se
prosseguir a situação atual, de poucos juízes
para montanhas de processos).
Não
pode levar em conta o que dizem as partes, jogadores e torcedores
exaltados. O juiz é ele. Certa ou errada a decisão que
irá figurar na súmula é sua, de sua exclusiva responsabilidade. E não poderá ser modificada. Se o bom goleiro precisa de sorte, o árbitro muito mais. Já os críticos de arbitragem, eu próprio incluso, podem ter a
visão do jogo no estádio, às vezes de ângulo mais favorável que o do juiz e depois de conferir o visto com as imagens da televisão, crucificar o árbitro.
O
próprio árbitro, confrontado com o videotape, pode
robustecer sua confiança ou ficar abatido diante de um erro.
Tarde demais. Não há volta. A controvérsia sobre
o juiz é um ingrediente a mais para avivar a paixão
pelo futebol. Porém não se iguala à própria
dinâmica do jogo, traduzida no comportamento do craque, em sua
capacidade de criar.
Por mais que a preparação física e as estratégias
e táticas do jogo se aprimorem, o futebol jamais vestirá
a roupagem matemática do xadrez. E mesmo no jogo de xadrez
aparecem fenômenos capazes de inovar, como um
Kasparov.
ROQUE CITADINI
(O
EXPRESSO, CAPÃO BONITO-SP, 18/5/2002)