PRETO
NA CAMISA, MAS VERMELHO NAS CONTAS
Clube
de maior torcida do país, líder de audiência na
TV e rádio, o Corinthians tem o que comemorar nos seus 90 anos
de história. No começo, quando o futebol era esporte da
elite, algo como o golfe é hoje no Brasil, não passava
de um time de várzea, de futuro mais que incerto. Preto, só
na camisa. Na contabilidade, vermelho. Nem o modesto aluguel da sede,
uma sala no Bom Retiro, era pago, para irritação do
senhorio. A pendura de 35 mil reis provocou violenta reação:
despejo e confisco dos móveis, além do escasso material
de escritório, como garantia da dívida.
O
clube perderia, de uma só vez, todo seu patrimônio. Esta
história teve final feliz, graças a Neco, então
um garoto, e outros voluntários que resgataram os bens do time
em audaciosa excursão noturna à sede. Vale
a pena relembrá-la agora, quando se fala de crise no futebol e
crise nos clubes, às vésperas da Copa do Mundo. O que
está acontecendo? Na última semana o futebol reuniu
multidões nos estádios e prendeu à tela da TV
centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, para ver as
finais de competições nacionais e jogos de seleções
que vão se enfrentar na Coréia e Japão. Onde
está a crise?
Certamente
não no esporte, no produto, como diria um profissional de
marketing. Acertaria quem localizasse a crise na exploração
comercial do esporte. A começar pela FIFA, na negociação
dos direitos de transmissão das Copas e das gigantes do
marketing esportivo, vítimas, algumas delas, de sua própria
cupidez. No Brasil, país onde o capitalismo não
dispensa ajuda da mão visível do Estado, o
futebol enfrenta muitas dificuldades para se firmar como negócio
rentável. No passado, por pressão do governo, o preço
dos ingressos era artificialmente baixo e rádios e tvs não
pagavam pela transmissão.
Para
compensar, o governo não cobrava os impostos. Depois, com o
dinheiro da TV, os ingressos permaneceram baixos mas os clubes tinham
o passe do atleta, agora fonte de receita em extinção.
E, vale a pena repetir, o futebol continua em alto nível mas
sua organização pouco ou nada avançou. Para
piorar, fez-se um calendário que deixou grandes clubes
inativos mais tempo que o habitual em Copa do Mundo.
O
fundo do poço. Não é preciso dizer mais. É
hora de agir e eu creio que os clubes reunidos na Liga Nacional estão
no caminho certo. Vão vencer a crise sem necessidade de pular
a janela, como Neco e seus bravos companheiros.
ROQUE CITADINI
(O
EXPRESSO, ALAMBRADO, 11/5/2002)