UM
CONFLITO HISTÓRICO
Àqueles
que acompanham com grande interesse a história de rivalidades
entre o Sport Club Corinthians Paulista e a Sociedade Esportiva
Palmeiras, rivalidade esta que adentra o seu 85º ano, vale a
pena recordar de um dos mais polêmicos casos que envolveram
ambas as agremiações e que, devido à repercussão
na época, ficou registrado na memória dos torcedores
durante gerações, bem como inspirou a alguns
intelectuais.
Nas
primeiras décadas do século passado, quando o futebol
encontrava-se ainda em sua fase amadora, era característica
das equipes possuírem jogadores dispostos a dar tudo
em favor de seu clube, já que estes não recebiam
qualquer espécie de remuneração e jogavam apenas
por puro amor à camisa. Tais paixões eram
mais exaltadas quando da ocorrência dos confrontos entre
Corinthians e Palmeiras (na época denominado Palestra Itália)
que, no início dos anos 20, já cultivavam intensa
competitividade havia três anos.
No
dia 5 de setembro de 1920, quando da realização de um
jogo entre os dois times, válido pelo Campeonato Paulista
daquele ano, o Palestra, que caminhava para assegurar a conquista de
seu primeiro título estadual, envolveu-se em sério
atrito com os alvinegros, quando estes reverteram a vantagem de um
gol que os alviverdes haviam marcado, assinalando dois tentos e,
desta forma, assegurando a vitória.
O
encontro, que foi marcado por brigas e agressões de todo tipo
e pela impunidade dos jogadores, atingiu seu ponto culminante de
tensões, quando o goleiro palestrino Primo, chocou-se com o
atacante corintiano Neco, que o agrediu a pontapés.
Seguindo-se uma verdadeira batalha campal ao ocorrido, em meio à
tensão, Neco ameaçou usar a cinta que usava para
prender o calção, no intuito de por ordem na
casa, sobrando até mesmo para o árbitro Odilon
Penteado do Amaral, devido à falta de pulso firme
deste na arbitragem da partida.
Uma
outra história que ronda este jogo, segundo as más
línguas, afirma que Neco teria recebido 500 mil réis de
um dirigente palestrino para fazer corpo mole.
O
glorioso campeão alvinegro, no entanto, teria avisado seus
companheiros antes do jogo, e usado o dinheiro para festejar com eles
a vitória de 2 a 1 sobre o rival. Apesar da imensa confusão
que gerou, Neco não foi expulso e os torcedores depredaram o
local do encontro, no caso o Parque Antárctica.
O
Palestra, por sua vez, inconformado com a derrota para o alvinegro,
chegou a pedir licença para a entidade máxima do
futebol de São Paulo, a APEA (Associação
Paulista de Esportes Atléticos), que em reunião
realizada em 17 de setembro de 1920, negou o pedido, restando ao time
alviverde disputar um jogo-desempate contra o Paulistano, para
sagrar-se campeão.
O
conflito, no entanto, ficou gravado na memória dos que lá
estiveram presentes, transformando - se em uma história que
seria perpetuada pelos torcedores e que inspiraria a concepção
de um dos mais famosos contos de Antonio de Alcântara Machado:
Corinthians (2) vs. Palestra (1), do livro Brás , Bexiga e
Barra Funda, publicado em 1927. 
ROQUE
CITADINI
(O
EXPRESSO, ALAMBRADO, CAPÃO BONITO-SP, 20/4/2002)