UMA
ATIVIDADE ECONÔMICA EM BUSCA DE RECONHECIMENTO
O futebol,
convém repetir, é diversão, paixão e
também negócio. Em suma, é uma atividade
econômica legítima. Seu principal agente, o clube,
promove espetáculos, cria uma infinidade de empregos, diretos
e indiretos, paga impostos. Até dá uma contribuição
(modesta) para a receita cambial do país, com as
transferências de jogadores ou participação em
competições internacionais. Deveria ter, como as demais
atividades econômicas legítimas, garantias do Estado.
Não
é o que acontece. Vejamos. A grande maioria das atividades
econômicas funciona o ano todo. A sazonalidade, como na
agricultura, é a exceção, não a regra.
Lógico. Como pagar salários o ano inteiro, mais a
gratificação natalina (13o.), férias, despesas
administrativas, etc. sem funcionar parte do ano? No passado os
clubes dos grandes centros, especialmente Rio e São Paulo,
podiam contar com a receita de excursões pelo país.
Ganhava o Corinthians ou Flamengo e também o clube da cidade
hospedeira. Hoje esse tipo de jogo amistoso perdeu o sentido.
Em
qualquer povoado os aficcio-nados conhecem as estrelas do futebol,
pela TV e ao vivo, durante os jogos nas cidades importantes de seus
estados, por ocasião do Nacional ou das Copas. Para ter
receita os clubes precisam estar em atividade, o que exigiria um
campeonato nacional de no mínimo oito meses de duração,
com jogos só nos fins de semana e nos meios de semana, parte
do ano, jogos das taças, como se faz na Europa. Tal calendário
é bom para o clube e também para investidores, por
deixar claro, já antes da temporada, quantas vezes suas marcas
serão expostas e em que lugares.
Para
a televisão também haveria vantagem na organização
da sua grade e planejamento comercial. Até os mais protegidos
setores econômicos reclamam de qualquer intervenção
do governo. Agora mesmo os bancos estão lutando para serem
excluídos do cumprimento do Código de Defesa do
Consumidor. Já os clubes, com a Lei Pelé, perderam as
receitas do passe e seus maiores ativos e nada ganharam em troca.
A
lei não impôs nenhuma limitação à
atividade dos empresários e assemelhados, os procuradores.
Nada contra a abolição do passe mas é impossível
aceitar que o atleta fique preso ao empresário ou procurador,
até por toda a vida, e isso a partir da infância. Os
contratos leoninos são assinados pelos pais, gente humilde,
grau de instrução ínfimo, sem saber que estão
transformando seus filhos em escravos. Não há nada
equivalente no mundo civilizado.
ROQUE
CITADINI
(O
EXPRESSO, CAPÃO BONITO-SP, COLUNA ALAMBRADO, 13/4/2002)