FUTEBOL -
CRISE E PROFISSIONALIZAÇÃO
A
palavra crise, quando relacionada ao futebol, tornou-se pleo-nasmo.
João Saldanha morreu pouco depois da Copa de 1990 e, durante
décadas, repetiu que nosso futebol só evoluíra
dentro das famosas 4 linhas. A rigor, os problemas daquela época
persistem e até se agravaram. Agora parece chegado o momento
da ruptura, da solução, porque só um vendaval
atômico, de norte a sul, poderia extinguir o futebol no Brasil,
junto com todo o povo.
A
causa da confusão reinante, a meu ver, é a incompleta
profis-sionalização do futebol. A incompreensão
de que o esporte é, ao mesmo tempo, paixão e negócio.
E como tal, exige grandes investimentos e deve dar lucro. E para isso
precisa de investidores. Não é assim com outros
esportes como automobilismo, golfe, tênis, boxe e o próprio
futebol em outros países? Nosso futebol, apesar de tudo é
um dos melhores do mundo, chegou a atrair investidores.
Mas
a atração durou pouco por vários motivos:
mudanças na legislação, com o fim do passe sem
criar, simultaneamente, garantia real para o investimento dos clubes
nas categorias de base; limitar o raio de ação dos
investidores a um só clube, enquanto empresários e
procuradores têm plena liberdade para seus negócios. O
resultado é que hoje existem empresários donos de
elencos mais numerosos que os dos grandes clubes. E os clubes, ao
menos no Sudeste e Sul, são pressionados a pagar salários
europeus aos jogadores e comissões técnicas, com
receitas modestas.
A
bilheteria, uma fonte de receita importante, míngua no Brasil.
Os estádios não oferecem conforto aos expectadores como
seria esperado. Enquanto quase todo restaurante tem estacionamento,
próprio ou em convênio, os estádios nada
oferecem. Como resultado, a receita fica concentrada na TV, só
interessada em transmitir jogos da divisão de elite. Por fim,
a exportação de jogadores também diminuiu, por
causa da crise na Europa e da concorrência dos países do
Leste Europeu.
O
Corinthians é hoje o único dos grandes clubes a contar
com um parceiro. Os dois lados têm demonstrado maturidade na
gestão de um negócio difícil, confiantes em
mudanças. Querem, com o próprio exemplo, contribuir
para apressar a desejada mudança. O Corinthians, promovendo a
separação do futebol das atividades sociais, para
tornar mais transparente sua gestão profissional e assim criar
um clima propício à construção do
estádio. O parceiro, completando o pagamento do terreno, por
si só um grande investimento, tornando claro sua disposição
de continuar a investir.
Clubes de cidades econômica e politicamente de porte inferior a São Paulo, como o Betis de Sevilha ou o La Coruña, da cidade de mesmo nome, têm estádios modernos invejáveis. Por que não São Paulo também? Onde foi parar o nosso tão celebrado espírito bandeirante? Minha aposta é que ele continua vivo e presente no coração corintiano.
ROQUE
CITADINI
(O
EXPRESSO, ALAMBRADO, 30/3/2002)