Quando
os Orixás mudam de lado
Nada
mais comum que o apelo ao sobrenatural, à ajuda divina. O ser
humano é capaz de lutar pelo que ambiciona e o faz, mas
contempla sempre a possibilidade de uma intervenção de
fora, de um milagre. No futebol, como no amor, negócios ou
política, não é diferente. O torcedor quer a
vitória sempre e não raro julga insuficiente para
alcançá-la só o esforço de onze atletas
em campo. Aí vale tudo.
Simpatias,
promessa ao santo de sua devoção, consulta ao horóscopo
do técnico e dos jogadores, e por que não, um
trabalho de macumba. Invocar o santo, recorrer a simpatias,
horóscopo, tudo bem. A coisa pega no caso da macumba. No
passado toda prática não permitida pela religião
oficial era punida. A Igreja Católica, na Inquisição,
queimava os infiéis. A macumba veio da África, com os
escravos e até quase a metade do Século XX era
reprimida a sabre. O negro liberto só conseguiu o direito de
praticar sua religião com a Constituição de
1946.
O
duplo estigma memória da repressão e do
preconceito, coisa de negro- está presente na
discussão de macumba e futebol. O palmeirense Pascoal Giuliano
ignorou o estigma e na partida decisiva do Campeonato Paulista de
1954, em jogo o título de Campeão do Centenário,
contra o Corinthians, fez o time entrar em campo de camisas azuis,
por recomendação de um Pai de Santo. Deu
empate, 1 x 1, e o Corinthians sagrou-se Campeão do
Centenário.
Pascoal
Giuliano perdeu o título, a admiração dos
palmeirenses e ainda teve que suportar as piadas de Oswaldo Brandão,
o técnico vitorioso, sobre sua decisão de trocar o
verde pelo azul.
ROQUE
CITADINI
ABAIXO: Imagem do time do Palmeiras em seu uniforme azul. (Foto: GAZETA PRESS)

(O
EXPRESSO, ALAMBRADO, 2/2/2002)