A exuberância irracional que invade o futebol
Em meio a
uma das maiores crises econômicas que o mundo vive nestes
últimos cem anos, dias atrás o esporte recebeu a
bombástica notícia das contratações de
Kaká e Cristiano Ronaldo pelo Real Madrid.
A notícia
surpreende não somente pelos valores envolvidos (€ 65 mi
e € 94 mi), mas porque o clube espanhol se encontra imerso em
enorme dívida, cerca de R$ 1,3 bi, como informou Jamil Chade,
no Estado, na semana passada. A reportagem traz informação
mais surpreendente ainda: a de que a contratação dos
superastros somente foi possível graças à linha
de crédito de dois bancos espanhóis, Caja de Madrid e
Grupo Santander, que, em troca do vultoso empréstimo,
obtiveram como garantia a renda que virá dos direitos de
transmissão dos jogos do time pela tevê.
Sob
todos os pontos de vista a negociação traz
interrogações: o fato de que a crise econômica
que se abate sobre o mundo não ter sido superada e, pelo
contrário, alguns afirmam que não chegamos ao fundo do
poço; os bancos, em todos os países, inclusive os
espanhóis, foram socorridos por muito dinheiro dos governos e,
portando, deveriam evitar operações de retorno
duvidoso.
De há muito, clubes de futebol, especialmente
os espanhóis, não trabalham com a ideia de que suas
receitas devem suportar suas despesas.
Fosse essa a meta,
esses negócios não teriam ocorrido. A lógica é
de que se façam aventuras, porque o governo os socorrerá
depois. Só isso permite tal tipo de contratação.
Como
em passado próximo, o Real Madrid foi socorrido pelo governo
local, por meio de generosa compra de imóvel.
Já
é tempo de o futebol superar essa “exuberância
irracional”, de que falava Alan Greenspan, ao criticar a
exagerada especulação no mercado de ações
norte-americano.
Ou os clubes sobrevivem com orçamentos
equilibrados, ou teremos de instituir o modelo espanhol de subsídios
para essas contratações economicamente
insustentáveis.
O exemplo apresentado pelo Real Madrid
é péssimo indicativo a todo o futebol. Ele não
deve servir de parâmetro nem para os clubes brasileiros nem
para o governo. As agremiações devem buscar equilíbrio
em suas contas e não trabalhar com a expectativa de terem
sempre um grande déficit a ser coberto por ações
oficiais.
Antonio Roque Citadini é
conselheiro do SC Corinthians Paulista
(O Estado de S.Paulo, Esportes, "Da numerada", 21/06/2009, p.6)