Por que Berezovski assumiu?
Os
jornais desta semana publicam matérias e entrevistas com o
russo Boris Berezovski onde este anuncia que vai assumir a Media
Sports Investment (MSI), o contrato dessa com o Corinthians e que
deseja entrar para o mundo do futebol.
Por que teria
Berezovski assumido somente agora, transcorridos dois anos da
parceria Corinthians-MSI, que é ele o "Capo dei Tutti
Capi"?
Embora muitos já soubessem que o
"chefão" era ele, isto foi estrategicamente ocultado
num pacto de conivência entre alguns dirigentes alvinegros e os
"investidores".
Mas hoje é questão de
menor importância. Creio que o mais relevante seja entendermos
este novo estágio da parceria Corinthians-MSI e a entrada em
palco do real dono do jogo, o Sr. Boris Berezovski.
Por que
este magnata russo bilionário, exilado na Inglaterra,
audacioso nos negócios, negou por dois anos e agora assumiu
outro papel? Vários são os motivos, dos quais alguns
são relevantes, como sempre ignorados pela imprensa
brasileira, para explicar esta nova manobra de Berezovski.
A
primeira razão deste novo posicionamento pode ser encontrada
por aqueles que leram o livro “The Godfather of Kremlin”
("O Poderoso Chefão do Kremlin"), escrito por
Paul Klebnikov, editor da Revista Forbes russa, tragicamente
assassinado em 9 de junho de 2004. Em todos os negócios que
Berezovski organiza ele usa o mesmo método: primeiro constitui
uma empresa num paraíso fiscal, com investidores selecionados
por ele, geralmente amigos da ex-União Soviética;
encontra um testa-de-ferro experimentado e somente depois, em outra
etapa, se o negócio atingir os seus objetivos é que ele
assume o controle. Uma segunda explicação é o
fracasso das articulações que montou contra o
presidente Putin na Rússia. Aparentemente o objetivo de
organizar uma grande frente de oposição a Putin, que o
destituísse do poder, enfraqueceu; muitos oligarcas aderiram a
Putin, outros foram presos e, inegavelmente, o presidente russo se
consolidou tanto interna como externamente como o grande dirigente do
país. Se por um lado a opção de montar uma
oposição vencedora na Rússia encontra-se em mau
momento, por outro, Berezovski perdeu vários aliados dentro da
Inglaterra. As últimas mudanças no gabinete inglês
afastaram de postos importantes os amigos de Berezovski e os novos
ocupantes não vêem com bons olhos a política de
acolhida destes ex-soviéticos que tem sido praticada na gestão
de Tony Blair. Veja-se que há duas semanas Inglaterra e Rússia
assinaram um inédito tratado que permite a deportação
de condenados de um país para outro, algo até então
impensável pelos exilados russos.
Outro fator
importante levou Berezovski a assumir sua posição de
chefe da MSI e isto tem maior relação com o Timão.
É inegável que seus objetivos ao mandar Kia Joorabchian
fazer contrato com o Corinthians não era ganhar títulos,
montar grandes times ou revelar craques. Isto tudo é
secundário. Desde o início seu esforço era
aproximar-se do país, de seus dirigentes, homens de negócios
e gente influente na sociedade brasileira. E isso Berezovski vem
conseguindo, pois esteve no Brasil, tendo sido recebido por Ministros
de Estado, políticos e empresários, sempre respaldado
por bons e bem posicionados advogados. Tudo foi feito, porém,
com forte dose de clandestinidade, que agora ao assumir o Corinthians
desaparecerá. Com a situação difícil na
Rússia, dificuldades na Inglaterra, com as portas fechadas nos
Estados Unidos e França, o Brasil se coloca como uma grande
janela para seus negócios e todo seu campo de ação.
É por isso que Berezovski assume agora a posição
que sempre teve, uma vez que o estado de clandestinidade passa a não
ajudar mais o seu objetivo que é criar uma sólida base
de negócios, apoio e por final até ganhar uma nova
cidadania, mas no Brasil.
Berezovski sabe que tem hoje alguns
obstáculos nesta jornada sul-americana que começou. A
primeira barreira é a Fifa que não o vê com bons
olhos e combate a ação dos russos exilados no futebol.
Especialmente os amigos de Berezovski, Pini, Badri e o gerente Kia
optaram por comprar jogadores através de empresas
particulares, o que a Fifa condena e combate. O obstáculo da
Fifa a Berezovski restringi-se ao mundo do futebol, no qual ele
pretende agir como outros olicarcas russos, à custa de
bastante dinheiro e muitos amigos, inclusive velhos dirigentes do
esporte bretão. O segundo óbice será a Rússia
de Putin, que move uma aguerrida luta contra os bilionários
ex-soviétivos, em todos os países aonde eles procuram
fazer negócios, e mesmo nos Estados Unidos, nação
tão aberta às finanças, estes russos vem
enfrentado dificuldades. No nosso caso, as autoridades brasileiras
certamente sentirão o mau humor de Putin nos próximos
acontecimentos, ao lembrarmos que a Rússia tem diversos
negócios com o Brasil e terá dificuldade em aceitar
facilmente que nossos governos vivam de amores com Berezovski.
NÃO
É SÓ CONOSCO
Com o oligarca russo Boris
Berezovski assumindo seus negócios na MSI e seu projeto
Brasil, as questões polêmicas em torno da parceria com o
Corinthians deixam de ser assunto estritamente corinthiano ou do
universo do futebol, transformando-se agora em uma questão de
o Brasil decidir se aceita investidores com muito dinheiro e muitos
problemas. O Corinthians já serviu a Berezovski, abrindo a
porta do país, agora, no futebol, ele procurará manter
um ou outro investimento aqui e acolá, dentro de uma visão
secundária em que o mais importante é a proximidade com
o governo e as autoridades, obtendo valiosas e fraternas
ligações.
O MAGNATA QUE ACABOU COMO
GERENTE
A imprensa esportiva brasileira, constituída
por tapuias, guaranis e tupis e pequeno grupo melhor informado,
passou aos seus leitores e aos torcedores que o Sr. Kia Joorabchian,
testa-de-ferro da MSI, era "investidor, magnata, ricaço."
Não havia programa de televisão, talk-show, camarote da
Sapucaí, tablóides esportivos, nos quais não
saudássem o "ilustre investidor". Coube a Boris
Berezovski no momento que assume a dianteira dos negócios da
MSI, resolver a questão: "é apenas um gerente."
Foi até delicado, outro diria "é um mero
empregado." Para desespero de vários jornalistas
brasileiros, que o reverenciaram como "Big Business"
Joorabchian.
OPOSIÇÃO E SITUAÇÃO
Na
eleição corinthiana, que ocorrerá em janeiro
para eleger 100 conselheiros, discute-se quase tudo, menos o
essencial. As três ou quatro chapas que circulam por aí,
apóiam a parceria da "MSI do Kia."
Agora, com as
palavras de Boris Berezovski, esperamos que os corinthianos despertem
para o gravíssimo problema em que fomos jogados, não
sendo recomendável fazer discussão eleitoral apenas por
pequenas brigas e causas comezinhas.
Ou o eleitor não vai
entender nada.
DA FARSA À TRAGÉDIA
Nestes
dois anos de parceria, a direção corinthiana,
incluindo-se situação e vários freqüentadores
da oposição, ajudaram a encobrir a "farsa da MSI."
Como um "fundo de investidores do mercado", mas, na verdade
uma empresa de fachada de alguns investidores soviéticos,
dirigida por um "gerente" iraniano. Agora que a farsa
acabou, esperamos nos livrar da tragédia anunciada.
Antonio
Roque Citadini, conselheiro do SC Corinthians Paulista
(Alambrado, 08/12/2006)