TEMPOS DIFÍCEIS
O
Corinthians vive tempos difíceis, na pior crise de seus quase
cem anos de existência.
A malsinada parceria com a MSI,
que completa agora em dezembro dois anos, além do desastre
futebolístico gerou um emporcalhamento da imagem do clube, com
um infindável volume de notícias no mundo todo,
sujando, denegrindo, aquela que é uma das mais importantes
instituições populares brasileiras, o Corinthians.
O
período “Corinthians-MSI” produziu um estrago no
futebol; interrompeu a profissionalização do
departamento de futebol, estabeleceu o caos e a anarquia, criou um
mundo de sucessivos escândalos abertos a procuradores,
amadorizou a gestão e desqualificou o clube perante seus
concorrentes, sua torcida e sua história.
Bastaria
começarmos a falar das derrotas no futebol, para visualizarmos
o tamanho do desastre. Iniciemos pela atual situação no
Campeonato Brasileiro, no qual o Corinthians permaneceu o maior
número de semanas de sua história na zona de
rebaixamento. Nesses últimos 24 meses, além da
vexatória campanha no Brasileiro, perdemos, pela primeira vez
nos últimos 10 anos, dois campeonatos paulistas seguidos; a
Copa do Brasil do ano passado, para o Paulista de Jundiaí, o
que não enobrece qualquer clube, quanto mais o Corinthians;
fomos eliminados na Libertadores pelo River Plate, que tinha seu pior
conjunto nos últimos 20 anos; sofremos duas eliminações
simultâneas na Copa Sul-Americana, sendo a deste ano para um
desconhecido Lanus. Somente vencemos o Brasileiro do ano passado,
literalmente na “bacia das almas.”
Acresça-se
a esses fracassos em Copas e Campeonatos uma seqüência de
derrotas pouco vista para São Paulo, Palmeiras e Santos, fato
que nossa torcida quase havia esquecido.
E ressalte-se que,
nestes tempos de derrotas, estabeleceu-se o caos no Departamento de
Futebol, que a absurda troca sistemática de técnicos
(um a cada três meses) por si só demonstraria a
bagunça. Mas se as derrotas no campo e a gestão
anárquica MSI-Corinthians comprometem, mais ainda ficamos
estarrecidos com a permanente publicação de notícias
em jornais e revistas, brasileiros e estrangeiros, que maculam a
imagem do Corinthians ao mostrar as peripécias de Kia, Bóris,
Badri, Pini e demais figuras.
Neste mundo, ou submundo, o
Corinthians ganhou uma censura pública de Joseph Blatter,
presidente da Fifa, com um ataque direto à MSI, e passou a ter
presença constante em páginas policiais, em que os
maiores protagonistas são investigadores, delegados,
promotores. Nos dias atuais, quando a Polícia Federal acelera
inquéritos, ouvindo dirigentes do clube, e a MSI se refugia
nas margens do Tâmisa, torna-se difícil avaliar a
extensão do dano para a imagem do Clube tal a dimensão
da catástrofe.
Inegável que o Corinthians esteja
perdendo mais do que em campo, ao juntar-se com suspeita gente deste
tipo, conspurcando o seu nome, prejudicando o presente e
comprometendo seu futuro. Nada nos livrará da pecha de termos
introduzido pessoas da pior espécie no futebol, fazendo
negócios piores ainda e relegando às futuras gerações
o ônus de defender-se diante dos adversários, com a
responsabilidade de polir sua imagem.
EXISTE SAÍDA
Muitos
corinthianos, ao ver tão dramática situação,
caem no desânimo. Como aceitar a parceria com a MSI como um
fato natural do destino? Outros não vêem saída,
num futebol em que circulam tantos valores.
É preciso
dizer claramente que o clube pode mudar tudo isso, mudança
esta que começa com o fim da parceria. Mandar esta gente
procurar parceiros em outra freguesia é o primeiro passo para
a reconstrução. Manter a parceria, neste estágio
de investigação do Ministério Público e
da Polícia Federal, bem como das denúncias da Fifa, é
aceitar uma posição de conivência, quase
promovendo uma defesa deste grupo e de seus negócios que vêm
sendo atacados no mundo todo.
Terminar a parceria e, em
seguida, separar o Departamento de Futebol do Clube Social,
recolocaria o Corinthians em poucos meses em condição
de competir, ganhar títulos, seguir seu caminho sem estes
predadores do mercado que aportaram via MSI. O Clube terá sua
imagem restaurada e, sem a obrigação do Departamento de
Futebol transferir expressivos valores para a área social, em
pouco tempo teremos um time competitivo e vencedor.
Lembremos
que, para extinguir a parceria, o Clube não precisa fazer
muito, apenas notificar a MSI, pois até hoje a parceira não
cumpriu o contrato, ao deixar de entregar a fiança bancária
garantidora da plena execução dos negócios com
o Corinthians.
Com o fim da parceria e as medidas para
autonomia e profissionalização do futebol, avançaremos
para a democratização, eficiência e transparência
na gestão do clube.
“NUOVO
DELITTO”
Muitos dos que defenderam a parceria fizeram-no por
motivos justos e nobres. Acreditavam que esse era o único
caminho para o Corinthians superar suas dificuldades e tornar-se um
grande clube. Estou certo de que a esmagadora maioria do Conselho
acreditou sinceramente que apoiava uma boa solução, não
lhes cabendo assim qualquer censura.
Alguns poucos, no
entanto, conhecedores de toda a extensão dos problemas da MSI,
fizeram-no por razões menos nobres; alguns visando cargos,
outros, por uma “boquinha” aqui e acolá, alguns
até para embarcar na onda. Desses que constituem um núcleo
pequeno dos que tinham pleno conhecimento dos problemas, e apenas
destes, o Clube deve cobrar as responsabilidades de dirigentes. Não
podemos aceitar a falácia de que a parceria teria sido um “mal
necessário.” Até porque não foi, poderia
ser um "delitto necessario",
na versão shakespeariana de que é preciso praticar uma
seqüência de crimes para se chegar ao poder e à
vitória fatal. Não deu certo com Macbeth* e,
repetindo-se o drama, não dá certo com o
Corinthians.
(*)
Da obra de William Shakespeare, magnificamente vertida para o libreto
de Francesco Maria Piave e Andrea Maffei, para a ópera de
Giuseppe Verdi: "Um
novo crime... é necessário, deve cumprir-se a obra
fatal."
Antonio
Roque Citadini
Conselheiro do SC Corinthians Paulista
2006-10-26