GRACIAS, TEVEZ!
O
atacante argentino Carlitos Tevez deixa agora o Corinthians, depois
de um ano e oito meses em que honrou o clube, vestindo sua camisa com
valentia e talento.
A atribulada saída, em que Tevez é
mais vítima do que responsável pelo desenlace, não
deve apagar a satisfação que teve o clube, por contar
com ele neste período. Tevez sempre atuou com garra, com uma
dedicação sem limites, marcou gols geniais, fez jogadas
desconcertantes, e escreveu seu nome na história dos grandes
craques do Timão.
Se mais não fez, não
foi por falta de empenho, classe ou genialidade, mas pela situação
conturbada que o elenco sempre viveu. Devemos a Tevez um aplauso
eterno, porque, sendo excelente atleta, trouxe muito do "lado
argentino de competir", onde a busca pela vitória é
uma obsessão contínua. Conquistou título, mas,
mais do que isto, o coração da torcida, saindo com a
glória de, sendo argentino, ter sido eleito o melhor jogador
do futebol brasileiro do ano de 2005. Gracias,Tevez
CONTRATAÇÃO
COMPLICADA
Afora a genialidade em campo, seus dribles, seus gols,
sua raça, tudo ligado a Tevez foi confuspo. A começar
por sua contratação, que apresenta todos os pontos de
uma nebulosa operação, onde a MSI quer esconder tudo e
o clube entrou quase como cúmplice do negócio. Tudo é
complicado: o valor do contrato, que, no início das
negociações, anunciava-se de 9, terminou em 22,6
milhões de dólares, com o Corinthians assinando tudo,
sem saber que operação era aquela; o pagamento, que se
efetuou entre paraísos fiscais, sem qualquer registro pelo
Banco Central do Brasil; além de um anexo, como contrato
simulado, entre Boca Juniors e Corinthians, para apoio às
categorias de base, que soa como mero escapismo contábil para
saída de dinheiro da MSI. O imbróglio de sua
contratação não retira, nem afeta, a qualidade
do craque e o carinho que devemos a tão grande jogador.
As
conseqüências da nebulosa negociação são
de responsabilidade da MSI e do Corinthians, não do
atleta.
SAÍDA COMPLICADA
Assim como a
contratação do jogador está envolta em "jogadas"
pouco ortodoxas, a saída de Tevez do Corinthians é mais
um ato das brigas entre o parceiro e o clube. Os dirigentes da MSI
garantiram ao jogador que, após a Copa do Mundo na Alemanha,
ele seria transferido para o futebol europeu. Sem negócios no
mercado, a MSI silenciou. O clube, vivendo uma situação
dramática no Campeonato Brasileiro, trocando de técnico
a cada três meses, passou a procurar bode expiatório
para a incrível permanência na zona de rebaixamento no
"Brasileirão". Tevez, que não contava em
continuar no clube, foi induzido a rebeldias, com o clube mandando
para um lado e a MSI, para outro. E, no final, ao jogador caberia
injustamente o papel de vilão. Certamente, passando-se o
tempo, a torcida verá com maior clareza que o atleta foi
vítima dos dirigentes do parceiro e do Clube, sendo usado por
um e por outro, e descartado como coisa, não como
gente.
CAÇA AOS ARGENTINOS
O mais deplorável,
dentre os fatos ocorridos nas últimas semanas no Timão,
deu-se na noite de quarta-feira, quando se anunciou a saída de
Tevez e de Mascherano, emprestados ao West Ham da Inglaterra, e o
afastamento cruel do jogador Sebá, retirado do elenco na hora
do jogo contra o São Caetano. Como afirmou Antero Greco, n'O
Estado de S. Paulo de hoje, "o Corinthians tratou Sebá de
forma grotesca, desprezível e rasteira". Ainda que tenham
os dirigentes retrocedido na liberação imediata, a
informação de que Sebá pode continuar no clube,
mas não irá jogar, tem a mesma maldade que a dispensa
pura e simples. O gesto de "cortar a cabeça" de
todos os argentinos tem um profundo odor de coisa velha, ato
retrógrado, preconceituoso, quase um misto de discriminação
e ignorância. A balela, por vezes divulgada pela imprensa
brasileira, de que os argentinos seriam problemáticos,
encrenqueiros, desleais, só se fortalece com essa "limpeza"
promovida pelo Corinthians, que constitui uma mancha na história
do Clube. Prejudica o futebol, já que os argentinos são
grandes jogadores e só o preconceito mantém as
críticas; afeta o país, pois longe de nos aproximar do
nosso principal aliado do Mercosul, coloca-nos numa postura quase
"ariana", de quem acha ruim se misturar a outros povos.
Isso tudo é mais grave quando se sabe que o Corinthians tem,
na sua história, os mais belos exemplos de tolerância e
de convivência entre pessoas de origens das mais diversas.
Fundado, basicamente, por italianos e alguns portugueses, recusou-se
a tornar-se um "clube de colônia"; aceitou árabes,
quando estes eram genericamente chamados de "turcos";
recebeu judeus, quando estes eram pobres e viviam espremidos no Bom
Retiro; acolheu negros, quando outros clubes colocavam em seus
estatutos vetos a tê-los como atletas ou sócios. E assim
foi indo, com armênios, gregos, espanhóis, japoneses e
coreanos. Isto mostra que somos grandes, a maior torcida da maior
cidade do País, porque somos tolerantes e não
discriminamos ninguém. Esta quarta-feira, em que um
profissional exemplar e dedicado como Sebá, foi humilhado, é
um marco negativo na história do Clube, do futebol e do
Brasil.
E os dirigentes corinthianos, que, nos últimos
meses, ficavam se empurrando para tirar fotos ao lado dos craques
argentinos, notadamente Tevez, passaram a falar com prazer que o
Clube não tinha mais argentinos, o que, em verdade, constitui
um magnífico troféu à ignorância, ao
preconceito e ao atraso.
A MÍDIA E A MSI
Nos
últimos meses, a maior parte da mídia não poupou
elogios à MSI e ao seu dirigente Kia; somente poucos
jornalistas independentes dissentiram deste procedimento. Para
bajulá-los, lembrava que a chegada da empresa estava
"movimentando o mercado","gerando notícias",
"agitando o futebol". Outros, mais afoitos, apregoavam, a
todo instante, que nada de irregular fora apurado contra os
investidores. Ou afirmavam que "negócio é tudo
assim". Bastou, no entanto, surgirem os problemas e o Sr. Kia,
sempre tratado como Magnata inglês, por aí, começou
a ser criticado e por alguns quase xingado, enquanto outros antigos
aliados, panfletariamente, gritavam "Kia, go home!". Assim
como os dirigentes corinthianos, que tanto defendiam a parceria com
fartos elogios ao iraniano, silenciaram, a mídia tomou o mesmo
rumo. Nesta fase, onde o executivo já não é o
magnata inglês, chegou até a ser tachado de árabe
por jornalistas, neste caso por ignorância, por não
saberem que a antiga Pérsia, atual Irã, nada tem de
árabe.
Antonio
Roque Citadini, Conselheiro do S.C.Corinthians Paulista
(Alambrado, 01/09/2006)