O Corinthians é Internacional
Muitas
são as frustrações que a parceria
Corinthians-MSI tem trazido ao torcedor corinthiano. De motivos para
comemoração podemos nos lembrar da conquista do
Campeonato Brasileiro de 2005 (num grande sufoco, é verdade!),
bem como das contratações de algumas estrelas, que
vieram do exterior, e se identificaram muito bem com o Clube.
Das
derrotas, nestes quase dois anos de parceria, difícil é
saber qual a que mais doeu; se a perda de dois campeonatos paulistas
consecutivos (coisa que não ocorria há muitos anos); a
desclassificação na Copa do Brasil, vencida pelo
Paulista de Jundiaí; a eliminação na
Libertadores para um dos mais fracos times da história do
River Plate; uma campanha no Campeonato Brasileiro de 2006, com
recorde de permanência entre os clubes na "rabeira"
do torneio; ou se tudo isso, mais uma seqüência de
derrotas para São Paulo e Palmeiras, situação
com que os corinthianos já não estavam
acostumados.
Mas o "clima de bagunça generalizada
no Corinthians", como disse o técnico Passarella, onde a
empresa parceira é absolutamente desqualificada para gerir o
futebol, espelhado não só nos tropeços do time,
mas também nas freqüentes trocas de técnicos, o
que há tempos não ocorria. Isso sem considerar os
permanentes conflitos entre empresários ligados ao clube ou ao
parceiro, na expectativa de contratações e reformas de
contratos, que vêm tornando o clube um verdadeiro "mercado
persa", desorganizado, caótico e até suspeito,
preocupando-se apenas em expor atletas para futura venda.
Acrescente-se a esperteza de anunciar contratações
que nunca se realizam, com objetivo exclusivo de acalmar torcedores e
ganhar espaço na mídia, sem preocupação
com possível desgaste da imagem do clube.
Mas, se
muitas das metas que o parceiro e seus defensores no clube
trombeteavam - "time imbatível", "investimentos
bilionários em infraestrutura", "vitórias e
mais vitórias" - não se estão cumprindo, um
objetivo está sendo atingido: o Corinthians é cada vez
mais notícia no esporte internacional. Precisamos ver, apenas,
se as notícias são boas ou ruins.
Creio que
nunca o presidente da Fifa Joseph Blatter preocupou-se e falou tanto
sobre o Corinthians, como agora vem fazendo. Em sua última
declaração, nesta quinta-feira, 17/8/2006, diz o
presidente Blatter: "No Brasil, existe um clube onde o
argentino Carlos Tevez joga, o Corinthians, que atua fortemente na
área de negociata de jogadores. E quando você procura
saber a quem pertence, ninguém sabe responder direito. Só
se sabe que uma empresa internacional, comandada por um iraniano, tem
participação no clube. Eles são proprietários
não apenas desta participação, mas têm
também participação em jogadores. E existe
jogadores que pertencem a três diferentes investidores. É
uma situação como na Idade Média".
(Jornal da Tarde, 18/08/2006, p. 5-B)
Poucas vezes o
Corinthians teve uma referência tão desairosa como essa,
feita pela maior autoridade do futebol mundial. Nada do que foi dito
pelo senhor Joseph Blatter é desconhecido no clube, tanto
entre os que apóiam, quanto entre os que se opuseram à
parceria. Aqueles que defendiam o desastroso negócio
procuravam palavras generosas para definir tão obscura
parceria. Viam, no intermediário, um claro testa-de-ferro (ou
"artista de negócios", dizem os russos), como se
fosse um "magnata inglês", portador de bilhões
e bilhões, e que generosamente aportaria no clube apaixonado
pelas cores alvinegras.
Aqueles que se opuseram à parceria
sempre deixaram claro que o pior do negócio era a origem
clandestina dos investidores, escondidos atrás de uma empresa
subitamente inventada. O que, aliás, é exatamente o
problema apontado pelo presidente da Fifa.
Não há
dúvida de que o senhor Joseph Blatter, ao criticar de forma
tão áspera a parceria MSI-Corinthians, não o fez
por ser são-paulino, palmeirense ou santista. Sabe o senhor
Blatter que hoje, amanhã ou depois, este tipo de investimento
no futebol gerará problemas com os governos locais. Ao falar
da MSI de modo veemente, procura avisar que não será
surpreendido e que o mundo do futebol não deve trilhar esse
caminho. E caso alguns já o tenham feito, foi um erro
condenável.
OMISSOS, OMISSOS, OMISSOS
Enquanto o
presidente Blatter, preocupado com o futebol e com os campeonatos que
a Fifa realiza, ocupa seu tempo para fazer tão grave
advertência, onde estão as autoridades do esporte
brasileiro, mais próximas do problema? Estão mudas,
escondidas, quase tão clandestinas quanto os investidores da
MSI.
A CBF, presidida pelo Dr. Ricardo Teixeira, que tanta
influência tem na Fifa, certamente, entre um cafezinho e outro,
deve ter ouvido diretamente Blatter e outros dirigentes da Fifa sobre
o problema. Mas, no Brasil, em português, nada falou, nada
alertou. E a Federação Paulista de Futebol, que tem um
clube a ela filiado, o Corinthians, sofrendo severas críticas
no exterior, vem permanecendo no maior silêncio, quando não
apoiando a parceria e até defendendo os membros da MSI. E o
Clube dos 13, entidade de que o Corinthians faz parte, não dá
nem o mais remoto alerta, tudo fazendo para que o clube continue em
tão malfadado caminho.
Mas se a omissão de CBF,
FPF, Clube dos 13, é grave, o que dizer do Governo Federal,
com o presidente da Fifa falando pela terceira vez que um clube do
país está fazendo negócios inexplicáveis
(para ser mais exato, Blatter diz "negociatas")? O
ex-ministro Agnelo Queiroz, que ocupava a pasta dos Esportes, quando
das discussões sobre a parceria, "fingiu-se de morto".
Do Corinthians só procurou extrair uma foto ao lado de
Sócrates e do Presidente Lula, com a camisa do clube, para
expor em seu site de campanha, mesmo sabendo-se que nunca foi
corinthiano. Agnelo, neste caso, foi mais do que um cordeiro: foi
omisso continuado, como também tem sido o seu sucessor no
Ministério.
LEÃO, O PRIMEIRO
Depois de
trocar técnicos a cada três meses, nestes vinte meses de
parceria com a MSI, finalmente o clube contrata um profissional que
poderá dar grande contribuição para reverter
este quadro de muitas derrotas que vimos enfrentando. Não foi
uma contratação refletida. Foi feita no momento do
incêndio, premida para salvar o time de uma situação
desastrosa. Há alguns meses, quando Leão estava
desempregado e o Corinthians precisando de técnico, e se
socorrendo de profissionais que nunca administraram equipe nenhuma,
Leão foi preterido. Naquela época os interesses de
procuradores da MSI e de amigos e dirigentes, não permitiam um
técnico deste porte, a menos que Clube e parceira
sacrificassem vantangens. Agora, com o barco fazendo água, ou
fogo, por todo lado, o caminho da salvação é que
estes grupos nebulosos que trabalham na decantada parceria percam um
pouco e o clube se salve de novas derrotas.
CLUBE DA
ESQUINA
O Corinthians contratou o terceiro jogador do Atlético
Mineiro, antes só fazia negócios com o São
Caetano. Os mineiros são todos jovens, sem grande projeção,
e negociados por valores de monta. O último, um goleiro, teria
vindo por dois milhões de euros. Mas, afinal, o que leva a MSI
a concentrar tantas contratações com o clube mineiro,
que, rebaixado no ano passado, disputa sem grande destaque o
campeonato da segunda divisão, e nem de longe parece ser um
"celeiro de craques"?
Ah, Minas! Antiga terra de grandes
banqueiros, do pão-de-queijo e do
doce-de-leite!
LIBERTADORES
O Internacional venceu com
todos os méritos a Libertadores 2006 e foi muito simpático
assistir à queima de fogos, aqui em São Paulo ou em
Porto Alegre, quando cada gol do Colorado era marcado. O São
Paulo teve seu esforço recompensado e é vice.
Antonio
Roque Citadini, Conselheiro do SC Corinthians Paulista
(Alambrado, 18/08/2006)