Além da Crise


A seqüência de maus resultados do Corinthians, neste Campeonato Brasileiro, e a surpreendente classificação nos últimos postos da tabela há várias rodadas, assusta a todos nós.
Com um elenco inegavelmente formado por grandes jogadores, era de se esperar resultados melhores, até porque o Corinthians, na última década, com parcerias ou sem elas, vem disputando o Brasileiro vencendo-o ou obtendo as primeiras classificações. Não é praxe do clube permanecer por várias semanas entre os piores colocados, na zona de rebaixamento, mesmo em épocas em que o clube tinha grandes dificuldades de recursos.

Muito se tem falado sobre o fracasso corinthiano, especialmente pela expectativa criada por esta malsinada parceria com a MSI, que, com algumas contratações bombásticas, trouxe tantos sonhos ao torcedor comum e um encanto bajulatório por boa parte da imprensa.

A raiz de nossas dificuldades de hoje está exatamente nesta conturbada parceria com a MSI; primeiro, fizemos um contrato ruim para o clube, onde pouco recebemos e muita liberdade demos a tal empresa, ao transferir de maneira absoluta a gestão do departamento de futebol com pequeníssimas contrapartidas.

Este quadro de insucesso no futebol, a rigor, não é recente. Desde janeiro de 2005, quando começou a "frondosa" gestão MSI, perdemos dois campeonatos paulistas, quando antes ganhávamos um a cada dois disputados; perdemos a Copa do Brasil mais fácil da história, em uma disputa contra o Figueirense, em que foi campeão o Paulista de Jundiaí (que não é nenhum time de primeira linha); perdemos a Copa Sul-Americana; saímos da Libertadores em um jogo contra um River Plate bem diferente do time de 2003, e formado praticamente de jogadores em fim de carreira, ou sem qualquer expectativa de transferência para a Europa, ao contrário do River anterior, que com seus "D´Alessandros" formava uma grande equipe, quase toda atuando no Velho Mundo. Ganhamos o Campeonato Brasileiro de 2005 na "bacia das almas", o que não retira o sabor da vitória. Outros insucessos, no entanto, que não aparecem na classificação, são igualmente doídos, como as seguidas derrotas para o São Paulo(velho freguês de caderneta do Corinthians, mesmo em períodos onde não havia parcerias); e derrotas até para o Palmeiras. Igualmente, transformamo-nos num túmulo de técnicos, trocando a cada três meses o treinador, o que nos relembra os piores anos da história do Clube.

Mas este paradoxo de muito dinheiro e pouca vitória não é inédito e só assusta aos desavisados. No entanto, mesmo aqueles que conhecem profundamente, e de longa data, o futebol se surpreendem pela dimensão do fracasso em que a gestão corinthiana está envolvida.

O caos, a bagunça, a quase esculhambação a que foi jogado o futebol profissional do Corinthians, gerando todo tipo de confusão por causa de uma direção amadora, desqualificada, quase varzeana, explicam boa parte do insucesso. Uma gestão construída a partir da idéia base da MSI, que é tornar o clube uma exposição de jogadores, quase um mercado-persa à disposição dos compradores europeus; na qual os maiores envolvidos são empresários amigos sempre ávidos a trazer um atleta para exibição, procuradores igualmente amigos, reiteradamente dispostos a conseguir bons contratos, frutos mais da amizade que da competência dos atletas, tudo isso gera o que simploriamente disse o ex-técnico Passarella: "o Corinthians é uma bagunça completa".

Nesta caótica situação, não há que se procurar encontrar explicações, para o insucesso, em qualquer tipo de conspiração de atletas. O mau resultado vem porque a MSI é uma empresa inteiramente desqualificada para gerir o futebol do Corinthians; nunca administrou nada, nunca enfrentou dificuldades porque nunca existiu e seus erros são claramente esperados, ainda que para escondê-los de vez em quando apareçam alguns discursos renovadores, reformadores ou até revolucionários na gestão do futebol. Por outro lado, os dirigentes do clube envolvidos no futebol em nada ficaram devendo à MSI;estavam mais preocupados em encontrar boas situações para seus amigos procuradores e agentes, e muito ajudaram à bagunça caótica instalada.

Não há muito o que se falar para sair de tão gravosa situação; reestabelecer uma gestão profissional no clube, com organização, disciplina, planejamento, vencendo o amadorismo e as espertezas do mundo do futebol. Com uma comissão técnica de gabarito, gerando-se um clima de disciplina, tranqüilidade e trabalho, evitando-se a interferência de dirigentes da MSI e do Corinthians em aventureiras negociações de jogadores; com isso, pelo histórico de boas condições de trabalho que tem o clube, rapidamente poder-se-á inverter este quadro de fracassos.

As dificuldades no departamento de futebol decorrem da ingerência da empresa, com seus interesses imediatistas e amadorísticos, sempre disposta a contratar jogadores ainda que não sejam necessários. E pelo lado do Clube de um certo "baixo-clericalismo", sempre disposto a ver no futebol um caminho para promover amigos, protegê-los e encontrar pequenos negócios.

"VIL RAZZA DANNATA"
Quando da discussão sobre a parceria do Corinthians com a MSI, não foram poucos os jornalistas que se encantaram com o negócio e com os negociantes. Naquela época, em jornais, TVs e rádios o Senhor Kia Joorabchian era chamado de magnata inglês, milionário, moderníssimo investidor etc. Agora, com a crise no futebol corinthiano, muitos dos jornalistas que viveram o "encantamento kianiano" preocupam-se em passar a críticos da MSI, como a livrar-se do apoio que tanto deram. Daí porque aparece todo tipo de artigo, como "Kia go home!", com a mesma leviandade que há pouco mais de ano e meio, só lhe fazia elogios. Há alguns que nem com "reza braba" de 318 pastores ou uma boa sessão de descarrego mudam.

TORCIDAS IN-DEPENDENTES
Nesse ano e meio com tantos tropeços, as torcidas organizadas mantiveram-se de forma solidária ao time e à gestão de futebol que o Corinthians tem. Contrariamente ao que ocorria em épocas anteriores, perder seguidamente para São Paulo e Palmeiras, perder títulos ou sair da Libertadores, não provocaram mais que uma ou outra manifestação exaltada de alguns torcedores inconformados.

Surpreendente porque em anos passados, mesmo em dias em que o Clube disputava títulos, lá estavam faixas contra diretores, dirigentes e profissionais. A silenciosa omissão destas torcidas organizadas, nestes dezoito meses, compromete-os tanto quanto, em vezes anteriores, manifestaram-se de forma desastrada e com grande exagero.


Antonio Roque Citadini, Conselheiro do SC Corinthians Paulista

(Alambrado, 04/08/2006)