Derrota e lições


A eliminação da Seleção Brasileira de Futebol para a França no mundial da Alemanha é dolorosa para todos nós.

O futebol é muito importante para o povo brasileiro como é também para o mundo, e ser eliminado em quartas-de-finais, ainda que venha a ser festejado, alguns por outros países, para nós é uma derrota humilhante. Muitos analistas já fizeram a radiografia desta derrota. Alguns culpam o técnico, outros apontam atacante, outros responsabilizam um zagueiro, enfim, não há dia em que não se encontre um bode expiatório para a ausência da vitória. Creio que devemos afastar esta visão oportunista tão comum em nossa mídia que apedreja pessoas, depois de reiterados elogios, ficando na superfície dos problemas e, como visto, mais confundindo o público do que procurando esclarecê-lo. Boa parte dos analistas e jornalistas subitamente se esqueceram dos elogios feitos e embarcaram em um trem de críticas para o qual não tinham bilhetes.

Creio que, com pouco mais de serenidade, poderíamos melhor analisar o ocorrido, com vistas para o futuro e não se concentrando em apedrejar o passado. O futebol brasileiro, nesta Copa de 2006, vive uma situação inédita. Nosso elenco é formado na maioria por estrelas mundiais, verdadeiras celebridades, que passam boa parte do tempo discutindo com seus empresários, agentes, assessores etc, sobre contratos de publicidade, gravação de anúncios, promoção de materiais, inauguração de lojas e um sem número de atividades negociais, que aparecem para quem é verdadeiro ídolo mundial, e nisso tudo o futebol torna-se quase secundário. O esporte que necessita de preparo físico, concentração, descanso e dedicação, fica lutando com reuniões de empresários, conversas com meia dúzia de celulares de agentes, horas de sono e repouso consumidas com assessores, longas sessões de gravação para TV, cinema e áudio, reduzindo em muito as ideais condições desportivas.

A Seleção Brasileira na Alemanha foi um grupo de celebridades, com pouco tempo para treinar e jogar futebol, com alguns atletas, mesmo que o desejassem, sem condições físicas e psicológicas para centrar suas forças e talentos na Copa do Mundo. Esse é o eixo central de nossa derrota. Jogadores-celebridades, que até jogam futebol, uns, outros tantos vivendo num mundo de glamour e negócios que o futebol produz. Acrescente-se a isso que muitos de nossos atletas vêm de famílias de poucas posses e, abruptamente, ganham notoriedade e dinheiro, perdendo-se entre assessores, seguranças privadas, agentes, câmeras digitais, telefones celulares, relógios e bolsas Louis Vuiton, isso tudo com a companhia de familiares de raízes modestas, as mais das vezes de precária escolaridade, alçados ao co-estrelato. Não se trata de jogadores que apenas ficaram ricos, até porque o acesso à riqueza pelo trabalho nada tem de condenável, mas, sim, ao mundo das celebridades e do glamour onde se perde o sentido do trabalho, passando a intensa exploração de mídia ser o objetivo primordial.

Abandonam o destaque nas páginas de esportes para ingressar nas colunas sociais, viajam em jatos particulares, carros com edição limitada isso tudo gerado por uma atividade que exige dedicação e preparo, sono tranqüilo, alimentação perfeita etc.

Este é o problema que nos fica depois dessa derrota. Certamente, muitos dos jogadores brasileiros perderão o status no “glamouroso mundo das celebridades de futebol”, mas, em virtude da força do esporte no país, outros nomes surgirão, e nas próximas Copas poderemos ter a continuidade do problema.

Fácil é criticar o competente técnico Parreira, mesmo que toda a Imprensa tenha elogiado, unanimemente, a convocação dos jogadores. Fácil é criticar o técnico Parreira, embora ele tenha alterado o time ao sabor dos palpites midiáticos. Fácil é criticar o técnico Parreira, porque não teria exigido treinos mais puxados, embora os próprios jornalistas soubessem que os jogadores se arrastavam pelos corredores dos hotéis exaustos, menos pelos treinos e mais pela intensa vida de celebridade.

Acrescente-se a tudo isso uma cobertura jornalística que transmitia até corrida em treino, e interpretava sorriso de jogadores como se fosse alegria por jogadas ou por empenho nos exercícios.

Um simples malabarismo com a bola no pescoço era exaustivamente reprisado na televisão, como a indicar a garantia de sucesso nos jogos.

Sem qualquer pessimismo é isto que precisamos resolver. E para a solução deste problema a mídia pouco tem contribuído.

Antonio Roque Citadini, Conselheiro do SC Corinthians Paulista



2006-07-05