Um apaixonado Parreira
Neste período de Copa do Mundo, em que o Brasil fica unido para torcer por sua Seleção, o lançamento do livro "Estratégia de um Vencedor", de Carlos Alberto Parreira, em depoimento a Ricardo Gonzalez Paradela, pela BestSeller, representa um dos belos momentos do esporte nacional . Além da já tradicional competência reconhecida do treinador, como um estudioso teórico e prático, amante do futebol, o livro relata uma das mais empolgantes etapas da vida de Parreira: sua passagem pelo Corinthians em 2002. Quem se der ao agradável trabalho de ler o livro todo, verá nos capítulos em que o autor trata do Timão, em várias páginas, um treinador apaixonado, empolgado, emocionado, quase um torcedor de arquibancada, narrando a enorme admiração que passou a ter pelo Corinthians em sua vitoriosa campanha.
Lembremos que Parreira sempre foi objeto de restrições em São Paulo: mesmo depois de campeão do mundo e de ter feito outras conquistas importantes, ele era tido como retranqueiro, teórico, sem charme e "sem a cara" para dirigir um time popular e de massa como o Corinthians. Este foi o quadro que encontrou em sua vinda, uma situação de "quase hostilidade", amenizada um pouco pelo fato de estar chegando ao Timão. No livro, lembra da reunião de sua contratação, afirmando: "Se você está em atividade como treinador, nunca pode dizer 'não' ao Corinthians". Na mesma linha, falando sobre o clube que ia dirigir, afirma o "carioca da gema" Parreira: "A exposição do Corinthians na mídia é quase tão grande quanto a da Seleção Brasileira, até porque diária. Há sempre 40 ou 50 profissionais de Imprensa no Clube, diariamente. Nos grandes jogos do Clube, há sempre mais de 10 emissoras de televisão no estádio."
Sobre o trabalho em 2002, Parreira mostra sua emoção e simpatia, e ao mesmo tempo sua frieza de estudioso do futebol. Diz o técnico: "O Corinthians tem uma estrutura das melhores do Brasil. Internamente, uma direção afinadíssima e muito bem organizada. Profissionais muito bem preparados em todos os setores, desde a rouparia até o departamento médico, fisiologia, preparação física. O pagamento do salário era rigorosamente em dia."
Na sua emocionante narrativa, Parreira acrescenta: "Digo, sem medo de errar, que foi um dos momentos mais felizes da minha vida quando trabalhei no Corinthians. Para você ter uma idéia minha mulher e minhas filhas são cariocas, mas viraram torcedoras corintianas fanáticas." O bom elenco e o proveitoso relacionamento entre comissão técnica e jogadores permitiu um ano vitorioso, de conquistas no campo e de grande prestígio para o Timão, como a entrevista coletiva, na véspera da decisão do Mundial de 2002 no Japão. Parreira, na ocasião observador da Fifa, falou para o mundo todo como "coach" do Corinthians, pois a entrevista foi transmitida ao vivo para um sem número de países e noticiada pelos tele-jornais.
Lembra ele, ainda: "no início da temporada, a diretoria do Corinthians organizou uma espécie de capa protetora para que as pressões mais do que conhecidas no clube (conselheiros, dirigentes, torcidas organizadas, como a gigantesca e influente Gaviões da Fiel) não chegassem dentro de campo. E a campanha do Timão ajudou a que nem uma crise sequer chegasse a se formar."
Com algumas diferenças, a opinião de Parreira é a mesma que vem sendo expressa por outros técnicos que passaram pelo Corinthians nos últimos anos. A organização, a seriedade, o profissionalismo e o equilíbrio são sempre destacados por Wanderley Luxemburgo ou Tite, Oswaldo de Oliveira ou Geninho. Lamentavelmente, isto é coisa de um passado, ainda que recente.
Passado e Presente
Quem lê as declarações dos técnicos que dirigiram nos últimos 18 meses, o Corinthians, fica estarrecido com o livro de Parreira.
Bastaria lembrar o que disse o técnico Passarella há três semanas, nos jornais brasileiros e argentinos: "O Corinthians é uma bagunça completa." Os outros que passaram por lá ultimamente dizem coisas piores que nem é bom lembrar...
Diferentes
O relato em várias páginas, com muitas referências e elogios ao Corinthians é contrastado com a chocante descrição sobre sua histórica passagem pelo São Paulo. Em um canto, quase perdido, com apenas uma linha e meia, Parreira diz que: "Teve uma rápida passagem pelo São Paulo, no segundo semestre de 1996, mas não teve tempo de transformar o grupo tricolor num time." Isto é tudo. Falou pouco para não falar o pior.
A Fifa e a MSI
A Fifa anunciou que está investigando o Corinthians e a sua parceria, e por razões muito simples: um clube de futebol não pode ter investidores clandestinos. A Fifa faz isso não porque tenha mudado ou esteja somente agora preocupada com capitais que se escondam em paraísos fiscais, mas, sim, seu receio é que os governos nacionais (notadamente os sérios) comecem a ficar incomodados e investiguem a chegada de empresários "de fachada", aplicando dinheiro de toda origem nebulosa no esporte.
Antonio Roque
Citadini.
2006-05-29
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