DINHEIRO E PROBLEMAS


À época em que se discutia a parceria com a MSI muitos dos ferrenhos defensores do negócio reconheciam que o contrato era ruim para o Corinthians e que os "investidores" eram problemáticos. Embora, para efeito externo, falassem em "magnatas ingleses", tanto favoráveis quanto contrários ao acordo, sabiam quem eram os bilionários que estavam prestes a aportar no Corinthians.

Não foram poucos os defensores da parceria que nos diziam:

"Tape o nariz, o negócio é ruim... o pessoal é complicado, mas têm muito dinheiro e vamos ter grandes contratações". Convenhamos, tudo é um pouco verdade.

Hoje, depois dos entreveros com os parceiros, ninguém mais nega que o contrato é ruim para o clube e muito menos que o tal grupo é "gente complicada". E, igualmente, recebemos um número de contratações impensável para o futebol brasileiro.

Mas, ao lado dessas ruidosas e boas contratações, como Tevez, Mascherano, Nilmar, recebemos também a maior desprofissionalização do futebol do Corinthians nas últimas décadas. É esta gestão amadora, anárquica, quase juvenil, realizada pelo clube e pela MSI, que leva um time com grande elenco e tantas estrelas a, em 15 meses de parceria, disputar 5 campeonatos, perder 4 (Paulista 05/06, Sul-americana/05, Copa do Brasil/05) e ganhar 1 (Brasileiro/05); a dispensar 4 técnicos e criar um ambiente de instabilidade em prejuízo dos jogadores e do próprio clube. O maior exemplo deste quadro é que, quando da saída do último treinador, deu-se um fato inédito: nenhum renomado técnico de futebol procurou o Corinthians para ser contratado. Certamente não foi porque o clube não tenha bons jogadores, pelo contrário, todos reconhecem que o Corinthians tem o melhor elenco do futebol brasileiro. Igualmente, não foi por preocupação econômica, já que se informa na praça que não existe problema para pagamento de técnico ou jogadores.

Lembremos que a história de que não há técnico no mercado é uma desculpa equivocada. O Corinthians sempre que dispensou treinadores, ou mesmo quando estes colhiam maus resultados, sofria enorme pressão de técnicos, seus procuradores ou mesmo parentes, para oferecerem-se para trabalhar. Por outro lado, poucos treinadores, mesmo empregados em grandes clubes, resistiam a um convite de se transferir para o Corinthians. Nos últimos anos podemos nos lembrar de Nelsinho, que estava no Inter de Porto Alegre e veio para o Corinthians, Vanderlei Luxemburgo, que abandonou o Santos mesmo tendo gravosa cláusula de rescisão; ou Geninho, que deixou o Atlético-MG, sendo declarado "persona non grata" em Belo Horizonte e transferiu-se para o Corinthians. O próprio Carlos Alberto Parreira em 2001 havia encerrado o contrato com o Inter e anunciado que não dirigiria mais nenhuma equipe de futebol, dedicando-se à pintura, ficando somente com seu trabalho junto à Fifa. Um cafezinho e um convite numa véspera de Natal mudou tudo. E veio para dirigir o time em 2002. Todos esses técnicos sabiam e sabem da importância do Corinthians. Por que então hoje com tão grande elenco, dinheiro e promoção, estes técnicos não aparecem?

Creio que é por medo. Medo da anarquia em que o futebol do Corinthians está jogado. Medo da bagunça. Medo da interferência contínua de dirigentes, empresários e agentes que a todo momento querem contratação, escalação ou reajuste de salário dos jogadores. Medo do amadorismo que, mesmo com muito dinheiro e bons jogadores, nos levou a campanhas modestas.


ECOS DE LONDRES

Ainda está faltando a diretoria corinthiana revelar os detalhes sobre o que tanto negociou nessas duas viagens londrinas (agosto/05 e fevereiro/06). O objetivo declarado pelos dirigentes, que era "botar o Kia prá fora", fracassou. Mesmo para aqueles diretores que ameaçavam que "se o iraniano não saísse em 30 dias, pediriam demissão", a viagem mostrou-se frustrada. Embora sempre avisem que nos próximos dias detalharão as grandes conquistas da cimeira londrina, cada dia mais se vai sabendo o que houve. Até porque o pessoal da MSI não consegue ficar de boca fechada.

DO CASEIRO E DO MAGNATA

Imagino o espanto que tomou conta do pessoal do COAF, da Receita Federal, da Polícia Federal e do Banco Central quando viu o depósito de R$25 mil na conta do caseiro Francenildo. Como disse um assessor do Ministério da Fazenda: "isso não tem explicação".

Imagino também o que estas autoridades devem estar achando do fato de o Corinthians contratar jogadores no exterior por US$22,5 milhões (Tevez), US$14 mi (Mascherano), US$3 mi (Sebástian) e tantos outros; se o depósito de R$25 mil do pai na conta do caseiro assustou tanto a Administração Federal, o que diríamos destas contratações de jogadores em modos tão inusuais no futebol brasileiro.

Nessas operações o Corinthians assinou todos os contratos e nada pagou. E a MSI, que nada assinou, liquidou as despesas. Neste caso, contratação e pagamento não tem nada a ver. Trazem uma estranha contabilidade.


QUER PAGAR QUANTO?

A parceria MSI-Corinthians, nesses 15 meses de grandes e volumosas contratações, acaba de anunciar a contratação do bom goleiro Sílvio Luiz do São Caetano. Como havia feito no ano passado, quando contratou o volante Marcelo Matos do mesmo clube, vê-se que a MSI tem bom trânsito com o "clube das bengalas azuis". Assim, 100% das contratações de jogadores da MSI no Brasil foram feitas com o São Caetano. E eu, que durante muito tempo critiquei o fato de a diretoria do clube do ABC, exceto o Nairo, ser toda palmeirense. Valha-me São Caetano!


FALE, ADVOGADA!

A nota da Dra. Gislene Nunes, advogada do Caso Marcelinho, divulgada na semana passada, é profundamente desairosa ao Corinthians. Com o seu linguajar típico, quase pré-colegial, narra as negociações de forma a deixar em desegradável situação os dirigentes do Corinthians. O que é pior, na frase final faz uma ameaça e diz "...por enquanto me calo...", como a dizer, muito mais poderia falar dela, dos dirigentes do Corinthians ou de todos que estavam envolvidos na negociação. Creio que não é próprio a um advogado fazer ameaças, a menos que sua conduta também não se tenha pautado por normas éticas passíveis de revelação.


Antonio Roque Citadini.

2006-04-17