A Cimeira Londrina... a piscina, a bocha e a peteca
Em
mais um capítulo do desentendimento, que vem ocorrendo entre o
Corinthians e sua parceira MSI, realiza-se ao longo das últimas
semanas mais um encontro londrino entre diretores do clube e os
"investidores" da parceria.
Destas reuniões
entre os corinthianos e os investidores, que os diretores do Timão
dizem não conhecer, nem delas participar, muitas são as
notícias que chegam à imprensa sobre as desavenças
existentes.
Divergem, segundo os jornalistas, nos valores de
investimento, sobre a oportunidade de contratação de
jogadores, sobre questões relativas à construção
do estádio etc. Não há dia em que um dos dois
lados não fale "em off" para jornais, transmitindo
suas posições e até algumas ameaças,
dentre as quais a exigência de que o presidente da MSI seja
afastado, ou até de diretores declarando-se esgotados e
prometendo se demitir "caso Kia continue por aqui."
Não
obstante essas notícias todas possam ter um ou outro ponto de
verdade, pouco se está esclarecendo sobre a essência dos
desentendimentos. Os diretores da MSI querem simplesmente cumprir o
contrato que fizeram, alegando que nada devem, que tudo já
pagaram e que é hora de colher os frutos. Pelo lado do
Corinthians, todas as exigências que são feitas,
incluindo a saída do principal dirigente da parceira até
questões de investimento, também encobrem a essência
do que quer o clube.
Na verdade, o que deseja o Timão é
continuar recebendo um certo valor para o clube social. Neste
primeiro ano de contrato, a MSI estava obrigada a repassar R$600 mil
por mês para as atividades sociais e olímpicas do
Corinthians. Assim, a piscina, a bocha, a peteca, a festa junina, os
bailes, o restaurante, as reformas e pinturas, tudo conseguiu andar
graças ao subsídio repassado nesse ano da gestão
MSI. A partir de agora, o contrato não garante mais a
transferência desses recursos e o clube social e olímpico
terá que viver de suas próprias receitas e da venda de
jogadores revelados nas categorias de base.
Outra renda não
haverá e aí está o ponto de maior problema para
o Corinthians, pois a discussão com a MSI visa encontrar uma
forma de financiamento para o clube social. Para os investidores, no
entanto, a questão do clube social é irrelevante e lhes
interessa somente comprar, vender, emprestar jogadores, ou, em poucas
palavras, lidar com o negócio futebol.
Embora os
diretores do Corinthians não digam em público,
consideram-se credores para que o clube continue recebendo uma verba
a fundo perdido, que financie suas atividades sociais, mas não
por alguma cláusula contratual.
O contrato é
ruim para o clube, que repassou todo o departamento de futebol para a
MSI, em troca do pagamento de algumas dívidas e de um aporte,
por 12 meses, para a área social, mas para os corinthianos
eles fizeram mais do que cumprir esse contrato ruim, ajudaram a estes
investidores problemáticos, que ainda hoje não podem
revelar seus nomes, a se esconder. Inventaram histórias de
magnatas ingleses, quando, na realidade, conversavam com bilionários
corridos do leste europeu.
Essa colaboração,
feita na informalidade, levou-os inclusive a deixar de cumprir
cláusulas contratuais, como a exigência de caução
para facilitar as coisas para a MSI, ou, até mesmo, convivendo
com duvidosas operações cambiais feitas pelos tais
investidores. Intimados por autoridades da polícia e do
Ministério Público, informaram desconhecer investidores
e operações, embora constando que com eles se reúnam
rotineiramente.
Caso aceitem manter o aporte mensal ao social,
as desavenças desaparecerão, Kia voltará a ser
um magnata inglês, brilhante e rico, do contrário, a
guerra mútua continuará.
É por esta
colaboração - que está à margem do
contrato - que os diretores do Corinthians querem um tratamento mais
cavalheiresco por parte dos investidores. Por isso foram levados a
acreditar que removeriam o Sr. Kia Joorabchian ou conseguiriam
qualquer outra vantagem na relação com os investidores.
A crise, portanto, não é do futebol, nem de jogadores
ou técnico, a crise é, e continua sendo, do clube
social que tem um déficit mensal em cerca de R$500 mil e que
precisa ser coberto por negociação de jogadores ou por
beneméritas contribuições londrinas. O caminho
correto seria reduzir os gastos sociais às suas próprias
receitas, procurando não comprometer o futebol, mas isto
afetaria interesses de dentro da estrutura da área
social.
MARCELINHO-LUIZÃO
A volta de
Marcelinho Carioca para o clube, com todo o barulho que provoca,
pouco tem a ver com o futebol. Marcelinho é um jogador que tem
história no Corinthians: ganhou títulos, marcou gols
memoráveis, fez tudo que uma grande estrela poderia fazer. Seu
retorno nos dias atuais resolve, em primeiro lugar, um problema grave
para o jogador, que perdeu a ação que movia contra o
clube e poderia ter que pagar ao final da demanda valores acima de
R$8 milhões. Com bens já penhorados e as perspectivas
ruins do final do processo, para o jogador o acordo passa a ser
importante. Mas não esperemos dele o atleta de 15 anos atrás,
nem os mesmos gols e jogadas. De quebra, dizem os diretores do
Corinthians, que o negócio ajuda o clube a resolver o Caso
Luizão e desonera o Timão deste complicado imbróglio
trabalhista.
A questão futebol aí é
secundária.
Antonio Roque Citadini,
conselheiro vitalício do SC Corinthians Paulista
2006-03-09
Também publicado no Blog do Juca, blogdojuca.blog.uol.com.br; e no Timãonet, www.timaonet.com.br