O
PRESIDENTE LULA E O GÊNIO TEVEZ
A
discussão começou no excelente blog do jornalista Juca
Kfouri (http://blogdojuca.blog.uol.com.br)
e depois avançou na coluna – sempre quente – da
jornalista Bárbara Gancia na Folha (jornal Folha de S. Paulo,
edição de 25/11/2005, Cotidiano):
-Afinal deve o
presidente Lula encontrar-se com o jogador Tevez?
O presidente
Lula é, sem nenhum favor, o mais envolvido dirigente do país
com o futebol e com o Corinthians. Conhece o esporte, relembra dos
antigos jogadores, escala todos os times, fala de vitórias e
derrotas do Timão com naturalidade. Equivocou-se no início
do ano quando disse que não acreditava que Tevez desse certo
no Corinthians.
Tevez é o craque argentino mais
corinthiano que o mundo do futebol produziu. Genial com a bola,
fantástico quando arranca para o gol, carismático com a
torcida, envolvente e solidário com os colegas, é o
maior jogador do Campeonato Brasileiro, com reconhecimento até
de são-paulinos e palmeirenses, mesmo em voz baixa.
Nada
há de reprovável, portanto, no encontro do presidente
corinthiano com o craque do time quando este conquista um
campeonato.
O problema do presidente Lula ocorre quando
aparece uma obscura entidade chamada MSI, um tal fundo que administra
o futebol do Corinthians, e que é investigado no Brasil e no
exterior nos aspectos de sua formação e
atuação.
Tevez, quando confrontado com a origem
nebulosa dos recursos da MSI, resolveu de forma genial o problema: "Não trabalho para a MSI" (revista Veja, 16/11/2005).
Quanto
ao presidente Lula, que vem sendo assediado pelos representantes do
fundo desde o ano passado, sua situação torna-se mais
complexa, como lembram os jornalistas Juca Kfouri e Bárbara
Gancia: receber dirigentes da MSI poderia ser um ótimo caminho
para uma empresa que tanto precisa limpar sua imagem e se aproximar
das autoridades.
Aqui não se trata de discussão
futebolística. A MSI é dirigida por um iraniano, Kia
Joorabchian, que se lançou no mundo dos negócios ao
comprar, – como “testa de ferro” –, um jornal
na Rússia para o oligarca Boris Berezovksi. Joorabchian é
astuto e sabe se respaldar em bons e conhecidos advogados, além
de um grande aparato de marketing. Berezovski, este
novíssimo-riquíssimo russo, hoje vivendo na Inglaterra
impossibilitado de viajar para qualquer outro país, debate-se
com um sem número de problemas legais, inclusive condenações
criminais, além de um atrito de grande profundidade com o
governo do presidente russo Vladmir Putin.
Berezovski é o
principal coordenador da MSI juntamente com alguns outros
“ex-soviéticos” e faz parte de uma dúzia de
oligarcas que nasceram com o fim da União Soviética.
Distribuiu-se entre este pequeno número de pessoas o
gigantesco patrimônio formado por antigas empresas soviéticas
de petróleo, gás, ferrovias, navios, bancos e tudo o
mais, gerou-se assim uma classe de bilionários que hoje
procura envolver-se com o futebol. São todos riquíssimos,
os menores dispõem de US$15 a US$20 bilhões, e quase
todos conseguiram cidadania israelense, alguns tendo permanecido na
Rússia e outros vivendo no exterior, por atritos com o novo
governo de Putin.
Ao chegarem ao futebol têm três
objetivos fundamentais:
- Ganhar e buscar origem para seu dinheiro (de forma
secundária);
- Obter prestígio, status de
bilionários, respeito do mercado e de autoridades; e
-
Conquistar amizades em governos pelo mundo que, no fundo, garantiriam
segurança a seus futuros negócios e interesses.
O
atrito que têm a maior parte desses oligarcas com o governo
russo é grave, algumas vezes violento, e não se trata
aqui de levantar quem é o menos mau ou o mais bonzinho, mas
constatar que estão em meio a um grande conflito.
E neste
contexto é que o Corinthians foi se envolver. Certamente,
passando-se os anos, muitos sobreviverão como ricos, outros
perderão a fortuna, muitos viverão sempre com
complicações com a Justiça e, como já
ocorreu, alguns poderão ser presos e até mortos. O
governo russo não dá trégua na perseguição
aos seus inimigos e ainda há pouco o presidente Putin
questionou o norte-americano George Bush, pois o irmão de Bush
teria se encontrado com Berezovski.
Ao receber Tevez o presidente
Lula terá momentos de alegria, mas o mesmo não se daria
recebendo a direção da MSI, dirigida por um procurador
de Boris Berezovski, devendo se preparar para sofrer com o mau humor
do presidente Putin.
Afinal, é assim que eles tratam esta
questão com qualquer país, até com os Estados
Unidos.
Antonio Roque Citadini
2005-11-25