NALDINHO E O MUNDO DA BOLA


Causou grande comoção a todos os brasileiros a notícia da prisão do grupo de Naldinho, que atuava na Baixada Santista e na Capital com o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro. Foi uma bela e bem organizada operação feita pela polícia de São Paulo, mas, para todos nós, foi duro ver Pelé chorando na TV ao falar do envolvimento de seu filho Edinho com a quadrilha detida. Pelé é inegavelmente o maior nome do Brasil, é conhecido em todos os cantos da terra, e suas jogadas são reprisadas com exaustão em todo o mundo. Sua fisionomia, suas palavras, suas lágrimas cortaram o coração de todos. Pelé não merecia o que ocorreu. Pessoa simples, gênio da bola, generoso em suas açõas, algumas vezes de forma atabalhoada, vive a mais turbulenta derrota de sua vida ao ver seu filho envolvido com um grupo de delinqüentes. Só podemos sofrer com Pelé e torcer para que supere este drama.

No entanto, a atuação de Naldinho e seus vínculos com o futebol trazem outra carga de preocupações. Como vimos pela palavra do delegado, a quadrilha recebia e vendia tóxicos e havia criado um portentoso aparato para lavagem de dinheiro, estendendo-se a compra de agências de carros, edifícios e outros negócios. A imagem de 160 veículos subindo pela Serra do Mar para São Paulo, - recolhidos como prova pelas autoridades -, reflete bem o poder de dinheiro que tem o narcotráfico e o combate a todas as formas de lavagem passa a ser decisivo para a repressão desta atividade criminosa.

Infelizmente o futebol brasileiro apresenta-se frágil para contribuir ao combate de tão grave mal que hoje assola toda a humanidade. Por um lado, os jogadores, quase todos pessoas humildes, nascidas em morros, favelas, periferias, acabam sendo vítimas diretas do contato com traficantes. Primeiro em festas, baladas, churrascos, para depois o narcotráfico avançar, chegando em alguns casos até o vício. Por outro lado, o fragilizado futebol brasileiro está sempre atrás de quem tem grandes volumes de dinheiro sobrando e disposição para jogadas arrojadas. O presidente da Federação Paulista de Futebol, Marco Polo Del Nero, pelo que foi informado em programa na TV Gazeta no último domingo, 12/6, pensa em fazer simpósios para esclarecer os atletas sobre os perigos das drogas. É muito pouco o que propõe o Dr. Marco Polo. Melhor faria se propusesse reunir também dirigentes de futebol e mostrar-lhes o perigo do dinheiro da droga, do dinheiro sem origem, do dinheiro oriundo do crime e os malefícios que causa a todo país.

É inegável que, assim como os grandes bicheiros usaram o futebol brasileiro, o narcotraficante procure se aproximar e usar o nosso principal produto para a ação mais determinante do narcotráfico: a lavagem do dinheiro. Tal fato não seria inédito no esporte, pois já tivemos exemplos em países europeus e da América Latina onde grandes somas foram aplicadas em contratação de atletas e construção de estádios e se viu depois que era dinheiro de origem criminosa. Em alguns países europeus esta é hoje a principal preocupação de governos e autoridades, asfixiar o tráfico cortando-lhe as possibilidades de lavagem de dinheiro.

Desafortunadamente, o Brasil é campo propício para uma investida voraz como esta. Primeiro porque o narcotráfico além de lavar o dinheiro procura ganhar simpatia na sociedade, como já fizeram os bicheiros e, nada mais simpático do que contratar jogadores e investir no futebol. Segundo, porque boa parte dos dirigentes brasileiros entende que não importa a origem do dinheiro, valendo a máxima: “dinheiro é tudo igual”, o que, por si só, abre as portas a qualquer aventura.

O dinheiro do narcotráfico, da venda de armas, do contrabando, do roubo de cargas, e de um sem número de ilicitudes está por aí procurando pousada para se reciclar e o único requisito para suas aplicações é o sigilo sobre sua origem. Ao clube cabe abrir os olhos e questionar sempre que apareçam investidores, ainda que implique a perda da contratação de jogadores ou de qualquer outro tipo de investimento. Agrava-se o caso brasileiro onde a jogatina, legalizada em alguns países, aqui vive em anárquica situação, gerando fortunas graças a brechas e sombras da legislação.

Além de uma parcela dos dirigentes aceitar passivamente qualquer tipo de investimento, dando-lhe proteção e sigilo, uma parte da imprensa brasileira também é receptiva, não sendo pequeno o número de jornalistas e radialistas que aplaude a chegada de investidores pelo simples fato de movimentar o mercado, sem indagar de onde vem e quem são os proprietários do dinheiro. A idéia de que “ferver o mercado” com “mais negócios e mais empregos” sem questionar a origem dos investidores e dos recursos é porta escancarada ao narcotráfico e a todo tipo de dinheiro sujo.


CONTRATAÇÕES E AS BOAS VIAGENS

Nos últimos 30 dias o Corinthians foi inundado por um sem número de contratações – Luís Fabiano, Vágner Love, França, Anderson, Elton, Rogério, Liédson -, tudo enquanto o time vence contando com boa parte de jogadores feitos em sua casa. Não podemos nem criticar a imprensa por “fazer” as contratações porque quase todas são divulgadas pelo clube com o intuito claro de abafar e esconder outros problemas. Em todo caso, com menos dirigentes para criar confusão nos vestiários, o time joga cada vez melhor e vence.

ORÇAMENTOS DE OURO

O orçamento revisado do Comitê Olímpico Brasileiro para realização dos Jogos Pan-Americanos de 2007 no Rio de Janeiro está cada vez mais confuso.
O valor citado na última semana é 80% superior ao de 2002, quando o Rio foi escolhido para organizar a competição, e este número não é definitivo. De tudo o que vem sendo divulgado nas últimas semanas o que podemos concluir é: 1-O orçamento inicial foi subdimensionado e deixou de incluir obras relevantes para a realização do Pan, sendo este procedimento vulgar e condenado unanimemente na Adminsitração Pública; 2-A tal participação da iniciativa privada, que bancaria boa parte do evento, sumiu. Ou melhor, nunca existiu, foi criação fantasiosa do COB para “dourar a pílula” do Governo quando da apresentação inicial do orçamento; 3-Pela forma de divulgação e pelas notícias nas entrelinhas, fica claro que os custos dos jogos pan-americanos serão inflados mais ainda, correndo o risco de se tornarem em “jogos de ouro”, não pelas conquistas, mas pelo tamanho dos gastos efetuados; 4-Será difícil ao Governo Federal com tantas necessidades de recursos para inúmeras áreas da administração bancar o “plus” trazido pelo COB; 5-Ainda acho que jogos pan-americanos são coisa para cidades modestas, médias, e não para o Rio de Janeiro que está dando um péssimo exemplo de como se organiza uma competição.

Antonio Roque Citadini, vice-presidente do SC Corinthians Paulista.

2005/06/13