NA MOSCA
A publicação, na
última semana, do relatório do Ministério
Público paulista a respeito da parceria Corinthians-MSI,
trouxe confirmações e novidades.
Contrariamente ao que afirmaram os envolvidos, como o próprio
presidente da MSI, todas as irregularidades que vêm sendo
divulgadas foram comprovadas. Talvez tenha sido esse o fato que levou
tantas pessoas a um estado de reflexão profunda, quase sem
reação. Quando o presidente, fundador, único
acionista e dono da MSI disse que o relatório não tem
provas, foi mais por reação mecânica do que por
informação jurídica, ou convicção.
Vejamos apenas dois pontos do relatório:
1-Ao
falar em lavagem de dinheiro, os Promotores apresentam um fato grave
e indesmentível: US$2 milhões foram encaminhados ao
Corinthians por uma pessoa desconhecida ou inexistente, denominada
Zaza Toidze. Numa linguagem menos jurídica diríamos
“através de um laranja”. Ora, enviar dinheiro de
paraíso fiscal por “laranja” não é
conduta de empresa séria e que está apenas em busca de
vantagens tributárias;
2-No relatório muito bem
detalhado, contendo inclusive informações de organismos
internacionais de reputação inatacável, vê-se
que a parceria tem investidores indefinidos e está cercada de
um conjunto de “homens de negócios”, todos com
larga ficha policial e condenações. Neste quadro
aparecem os russos, georgianos e israelenses, todos comprovadamente
envolvidos em um sem número de atividades irregulares e com
ilicitudes condenadas.
É certo que concluísse o
relatório de uma forma ou de outra, os envolvidos falariam a
mesma coisa. O importante, no entanto, foi que um órgão
público em pouco tempo, e com limitados recursos, efetuou um
belo trabalho de investigação, dando mostras de que o
país tem instituições, e que elas funcionam para
o Estado e para a sociedade.
PISOU NA BOLA
O
técnico Passarella tem demonstrado uma grande capacidade de
trabalho que, para aqueles que não acreditavam em seu bom
desempenho – entre os quais não me incluo, pois nele
sempre acreditei -, pisou na bola ao falar sobre o relatório
dos Promotores, no dia seguinte à sua publicação.
Disse aí nosso técnico, num campo onde ele não
atua com a mesma competência com que atuava como jogador e
treinador, que Kia deveria processar as pessoas pelo que estão
falando dele. Ora, nosso Kaiser, o Sr. Kia não processará
ninguém, pois sabe dos negócios que faz. Se ele não
soube explicar quem é o Zaza Toidze, que remeteu US$2 milhões
para a empresa dele, mais dificuldades terá para esclarecer as
contratações de jogadores feitas por preços
inflados.
Como técnico, Passarella é nota dez; como
jurista, não passaria no exame de ordem.
SERÁ
DOM SEBASTIÃO?
Dentre as revelações
ocorridas nas últimas semanas, e que não encontram
lógica, está o tal convênio de futebol juvenil do
Corinthians com o Boca Juniors, no valor de US$ 2 milhões. A
MSI levantou US$2 milhões com investidores e repassou para um
contrato que, de fato, é uma simulação; não
existe. Qual será o retorno para os investidores desse
contrato? Ah, se essa empresa tivesse acionistas, e se fossem sérios,
como seriam informados de um falseamento contratual como este?
Outra
preocupação, que veio com a edição de
abril da revista Caros Amigos, foi a de que o fórum para
questões litigiosas entre Corinthians e MSI, fruto dos
contratos de jogadores, seria Londres.
Isto contraria
o que foi decidido em dezembro de 2004, no Conselho Deliberativo, no
sentido de que todas as disputas judiciais ocorreriam em São
Paulo. Para quem tem não poucos problemas este é mais
um que se avizinha.
Por falar em problemas, os tais US$20 milhões
que viriam para pagar dívidas e que têm sua chegada
anunciada - e sempre adiada - desde dezembro sob alegação
de motivos mais estranhos, continuam na mesma (procurando data para
anunciar sua chegada). Assim como Portugal aguarda há tanto
tempo Dom Sebastião, nós aguardamos a vinda desse
dinheiro!
A VER NAVIOS NO SATIRICON
No Rio de
Janeiro, dois dias antes da divulgação do relatório
dos Promotores paulistas sobre a parceria, o presidente do Flamengo,
vários diretores e ex-presidentes, receberam o Sr. Kia
Joorabchian para um almoço no restaurante Satiricon. Nada mais
próprio para uma conversa em que apareceram encantos e
aberrações. Diga-se que o presidente Márcio
Braga, com sua histórica experiência, não deve
ter acreditado em quase nada do que o ilustre iraniano tanto falou.
Fato que não ocorreu com os ex-presidentes Veloso e Hélio
Ferraz, que se encantaram com as idéias e audácias do
“new businessman”. Uma pena! Muitos se lamentaram
de não ter conhecido o Sr. Kia antes, mas, creiam, sempre é
tempo para conhecê-lo. O ex-presidente Hélio Ferraz
poderia indagar do “presidente” da MSI sobre seus amigos
soviéticos. Aí saberia que, entre os nomes que circulam
nos negócios de futebol de Kia, vários são
proprietários de navios na Rússia, Geórgia e
Ucrânia. Nas privatizações ocorridas no pós-URSS,
alguns dos mais próximos interlocutores de Kia tornaram-se
donos e “kzares” da marinha mercante russa.
Poderiam alongar-se na conversa com Hélio Ferraz, afinal este
é um príncipe da Sunamam brasileira, e assim se
conhecerem com maior profundidade.
Antonio Roque Citadini,
vice-presidente do SC Corinthians Paulista.
2005/04/19