TROPEÇOS
E TRAPAÇAS
Os
defensores da parceria MSI-Corinthians nos jornais, nas emissoras de
TV e principalmente nas rádios vivem dizendo que nada foi
apurado e que não há nenhuma prova contra os atos da
empresa. Na mesma linha de defesa o sócio, dono, proprietário
e porta-voz da MSI diz nas edições de hoje (11/3) nos
jornais: “investigada, nada ficou provado”. Ficamos
assim: a MSI, criada há três meses e que trocou de
sócios, nome e endereço por diversas vezes, alega a
inexistência de uma sentença contra si como prova de que
suas ações são legais.
Portanto, nesta
lógica, só poderemos criticar os parceiros quando
alguns estiverem presos ou deportados e os seus sócios
condenados.
Nesta vulgar discussão, lembrei-me de
Goebbels, ministro da propaganda alemã, quando surgiram as
denúncias de existência de campos de concentração
e eliminação de judeus, ciganos e eslavos pelos
nazistas. Via tudo aquilo como evidente campanha contra o Reich,
campanha desacompanhada de provas e, portanto, infundada. O tempo
demonstrou que o relato dos perseguidos, o alerta dos opositores ao
regime e o brado de alguns heróis eram verdadeiros. Não
existiam processos, não havia julgamentos, nem sentenças,
apenas o crime e os indícios de que estávamos
envolvidos em uma tragédia. O próprio Papa João
Paulo II, então um simples pároco da Polônia
ocupada, em livro lançado há duas semanas (“Memória
e Identidade”) alerta sobre o ocorrido: “A real dimensão
do mal que grassava pela Europa não foi percebida por todos,
nem sequer por nós que estávamos no centro daquela
voragem.(...) É que os seus responsáveis faziam muitos
esforços para esconder seus próprios crimes aos olhos
do mundo”.
É sempre assim, quem viola a lei não
anuncia que vai fazê-lo, nem tampouco proclama o prazo em que
estará configurado o delito. Seria inóquo cobrar
condenação de irregularidades nascentes e construídas
de forma tão dissimulada. Mas seria um grave equívoco
silenciar sobre elas, a pretexto de não haver sentenças
ou condenados.
A MSI – nome fantasia do tal grupo - parte
da premissa inaceitável de que seus investidores devam ser
clandestinos, e de que seu dinheiro tenha surgido sabe-se lá
de onde. Por isso, seus passos indicam problemas de toda espécie.
Prometeram que não trabalhariam com empresas de paraísos
fiscais: não cumpriram! Prometeram que toda remessa de
dinheiro passaria pelo Banco Central brasileiro: não
cumpriram! Prometeram liquidar os débitos do clube: não
cumpriram!
Ao contrário, a empresa que já mudou e
desmudou várias vezes, continua sem endereço definido,
telefone ou secretária. Tudo substituído por uma caixa
de correspondências. Quando fez remessas da Geórgia
apareceu um Zaza Toidze, misterioso transeunte de Tbilisi, que
remeteu de seu país US$2 milhões para o Corinthians.
Elegeram Argentina e Portugal as bases de suas contratações,
e para esses países as remessas são feitas diretamente
sem que o dinheiro passe pelo Corinthians. Quando fizeram uma
contratação no Brasil, ainda que pequena, tiveram que
usar o nome de um terceiro para efetuar o pagamento.
No mundo das
finanças, onde a separação do lícito e
ilícito é muitas vezes sutil, agem bem as instituições
brasileiras ao não ficarem silenciosas. As investigações
do Ministério Público, do Banco Central, da Polícia
Federal, do Ministério da Fazenda e da imprensa fortalecem o
país e conferem aos negócios a seriedade que eles
merecem. Não devemos, como fazem alguns jornalistas, cobrar
resultado imediato de investigações que, por sua
natureza, são complexas e demoradas. Devemos aplaudir sua ação
e a ausência de omissão destes órgãos, que
não trocam a contratação de alguns jogadores
pela essência do obscuro negócio. Nos crimes
financeiros, e nos crimes políticos, os responsáveis
procuram esconder as suas ações, como lembrou o
Pontífice em seu recente livro.
A imprensa e as
instituições públicas do Estado não devem
e não podem esconder os indícios de irregularidades,
ainda que sejam de difícil apuração e até
de demorada conclusão.
-INVASÃO DA
ÁREA
Entre os fatos mais extraordinários da MSI,
destaca-se a contratação de jogadores da Argentina e de
Portugal, com pagamentos que não passaram pelo Corinthians ou
pelo Banco Central brasileiro. Mas não só isso causa
espanto com a MSI. A invasão do vestiário após o
jogo contra o São Paulo para cobrar o time, incursão
esta efetuada pelo presidente, sócio, proprietário e
porta-voz da MSI, configura-se como o mais puro ato de futebol de
várzea. Faltou apenas o dito cujo mandar recolher as camisas
para levar para casa enraivecido. Se continuar nesse ritmo, o
dirigente será convidado a comandar o Tabajara. E o salário
será bom.
-ENTRE GOLS E GOLES
Alguns
jornalistas de programas esportivos, especialmente em televisão
e rádio, vêm cobrando que a imprensa divulgue também
os atos positivos da parceria, não se pautando apenas em
críticas sobre origem de dinheiro etc. Entre goles e gols,
afirmam que a MSI está movimentando o futebol e que isto é
muito importante. Calma! Esta tendência de sempre ver o lado
positivo das coisas, algumas vezes equivocada, a exemplo do caso MSI,
trouxe-me a lembrança do professor de Direito Penal, em meu
tempo de estudante. Numa situação assemelhada, um aluno
procurava mostrar aspectos positivos em algo indefensável e o
mestre alertou-o: “Do jeito que você está fazendo
a defesa, você vai ver virtudes no nazismo. Hitler era
vegetariano e ecologista, e isto não atenua a pena do crime
que cometeu”.
Antonio
Roque Citadini
2005/03/11