PRÓFUTEBOL


A imprensa brasileira morre de amores pelo futebol europeu. Seus principais campeonatos, caso do espanhol, italiano e inglês, têm ampla cobertura nas páginas de esporte, além de serem transmitidos ao vivo por canais de televisão a cabo. Pena que nossos editores, repórteres e comentaristas deixem de lado um aspecto importantíssimo desse futebol, o econômico. No domingo, 2/11, ao ler a  imprensa italiana, tomei conhecimento do que seria uma ameaça ao sagrado cálcio e que pode se transformar na salvação do futebol europeu. A União Européia quer impugnar a lei Salva Cálcio, aprovada no início do ano e que permite aos clubes, nos seus balanços, amortizar em dez anos débitos que deveriam sê-lo  em no máximo três, e ainda concede benefícios fiscais. A lei, infringe normas contábeis da UE e subsidia clubes. Em “Problemas da Bota”, (publicado neste mesmo espaço) tratei do tema e mostrei que o Lazio, somente neste exercício, economizou 54 milhões de euros; o Roma, 27; o Milan, 20; e assim por diante. Só o Juventus não fez maquiagem de balanço nem usufruiu vantagens fiscais.


Os dirigentes italianos, longe de mostrarem sinais de pânico, pois sem os benefícios da lei os clubes estariam falidos, declararam-se tranqüilos. Segundo tais dirigentes, será inevitável estender as normas da  lei italiana à Europa inteira, porque ingleses, espanhóis e franceses, em situação difícil, querem exatamente os mesmos benefícios existentes na Itália. No Brasil, o governo trata os clubes de futebol como se fizessem parte de um eixo do mal, conforme a definição do presidente Bush. O Estatuto do Torcedor traz um sem número de exigências, muitas de alto custo. Até parece que os clubes ganham mais dinheiro que os bancos. Usar o argumento de que existem dirigentes corruptos é justificativa equivocada para a negativa de empréstimos. Ocorre no futebol o mesmo que em qualquer outra atividade do setor empresarial. Nem por isso o BNDES deixa de conceder empréstimos a empresas sólidas em fase de expansão ou a empresas em dificuldades. É hora, portanto, de fazer um “Prófutebol” antes que o dinheiro de BNDES acabe.


Há 25 anos não se constrói um estádio de futebol nem se faz reformas capazes de adaptar velhos estádios às novas exigências do público. Nada demais que o BNDES financie investimentos de infra-estrutura dos clubes. O Corinthians, em 94 anos de existência, resistiu com bravura às situações mais difíceis, provocadas por crises econômicas, guerras, revoluções e golpes de estado. Como outros clubes de ficha limpa não tem como fazer empréstimo de longo prazo, indispensável aos investimentos em infra-estrutura. Por que o BNDES não emprestar aos clubes que estão em dia com o Fisco, na condição de que o dinheiro seja canalizado para investimento? No caso do Corinthians seria possível reformar a Fazendinha e terminar o Centro de Treinamento.


Outros clubes poderiam parcelar débitos fiscais e participar de um amplo programa de investimentos na infra-estrutura futebolística. Com transparência nas contas e controle institucional o Brasil poderia iniciar uma grande renovação, mudando positivamente nosso futebol. Com novos centros de treinamento poderemos revelar cada vez mais craques. A construção de estádios e a reforma dos já existentes será a solução para dispormos de locais melhores, seguros e confortáveis, e, principalmente,  para o povo voltar a ver o futebol nos campos.


ROQUE CITADINI
4/11/2003




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