Administração
Municipal
PT, PCC E PERUAS: TUDO A VER?
Perueiro
acusa ex-secretário de Marta de favorecer o PCC em troca de
500.000 reais
Sempre se soube que uma das
principais fontes de renda do PCC, organização
criminosa formada por presos e ex-presos das cadeias paulistas, era o
mercado de lotações - ou de peruas, como são
genericamente chamados os microônibus e as vans que circulam
por São Paulo como uma alternativa ao transporte público
coletivo. O PCC não só domina parte das linhas do
sistema como também extorque cooperativas que, sem ligação
com ele, operam no setor. Há três semanas, a polícia
prendeu Luiz Carlos Efigênio Pacheco, presidente da Cooper Pam,
uma das principais cooperativas de perueiros da capital paulista,
suspeita de ligação com a organização
criminosa. Conhecido como "Pandora", o perueiro é
acusado de ter financiado, com dinheiro de lotações,
uma tentativa frustrada de resgate de preso de uma cadeia de Santo
André (região do ABC paulista), em março
passado. Detido, ele negou pertencer ao crime organizado, mas admitiu
a infiltração do PCC no setor perueiro e disse que foi
por ordem de Jilmar Tatto, ex-secretário de Transportes da
prefeita Marta Suplicy, que sua cooperativa incorporou integrantes da
organização criminosa. As duas afirmações,
graves, constam do depoimento que Pandora deu formalmente à
polícia. Uma terceira informação, porém,
ainda mais grave, ficou de fora do inquérito. Ela foi dada por
Pandora ao delegado Marcelo Fortunato, que o prendeu. Segundo disse o
presidente da Cooper Pam, o ex-secretário de Marta recebeu
500.000 reais para favorecer um grupo de perueiros ligados ao PCC no
processo de licitação para a exploração
da região sul da capital. Tatto, candidato a deputado federal
pelo PT, teve a prisão preventiva pedida pelo delegado, mas a
Justiça ainda não apreciou o pedido. Pandora foi solto
na quinta-feira (15), depois de passar dez dias preso.
Ele e
Jilmar Tatto são velhos amigos - conhecem-se desde a infância.
O perueiro, que nasceu em uma favela do bairro de Capela do Socorro
(região sul da capital), costumava jogar bola com Tatto e seus
irmãos, que moravam no mesmo bairro. Adultos, os dois
mantiveram a amizade. A nomeação de Tatto como
secretário de Transportes da gestão Marta coincidiu com
a ascensão de Pandora no mercado perueiro. Ele, que começou
trabalhando como motorista em Guarulhos, tornou-se uma liderança
no setor. O padrão de vida que ostenta hoje faz supor que ser
presidente de cooperativa de perueiros é um negocião.
Pandora dirige um Golf blindado, anda acompanhado por cinco
seguranças e mora em um condomínio de luxo à
beira da Represa de Guarapiranga. equipado com um intricado sistema
de segurança. dois campos de futebol, três quadras
poliesportivas e lagos para pesca e prática de esportes
náuticos. Era lá que, antes de ser preso. ele e Tatto
jogavam peladas e faziam churrascos nos fins de semana.
Até
a gestão de Celso Pitta, os perueiros rodavam clandestinamente
em São Paulo. Foram legalizados na administração
de Marta Suplicy. Na ocasião. os motoristas interessados em
trabalhar de forma oficial foram orientados a se organizar em
consórcios. A prefeitura dividiu a cidade em oito regiões
e coube a Tatto, então secretário de Transportes,
coordenar o processo de licitação que distribuiu os
lotes. Foi pouco antes disso que o PCC se infiltrou no setor. Presos
recém-saídos da cadeia viram no mercado de lotações
uma alternativa de trabalho promissora. A notícia de que
surgia. nas periferias da cidade, um comércio com alto giro de
dinheiro vivo logo chegou aos presídios. De lá,
integrantes do PCC passaram a associar-se a líderes das
cooperativas. Hoje, a organização criminosa está
presente em linhas que cobrem, principalmente, as regiões sul
e leste da capital.
Na semana passada. por meio de nota
distribuída à imprensa, Jilmar Tatto negou que tenha
envolvimento com o PCC ou com cooperativas ligadas ao crime
organizado. Para ele, seu pedido de prisão tem
"cunho político". Homem de confiança de Marta
Suplicy, Tatto foi também secretário de Abastecimento,
de Implementação de Subprefeituras e de Governo da
ex-prefeita. Seria o seu coordenador de campanha caso Marta tivesse
obtido o apoio do partido para disputar o governo de São
Paulo. Jilmar Tatto é o penúltimo filho de uma família
de dez irmãos - cinco dos quais têm ou tiveram cargos
importantes no PT. Arselino Tatto, um dos mais velhos, também
foi peça-chave para a administração de Marta em
São Paulo. Ele presidiu a Câmara dos Vereadores em 2003
e 2004 e foi, juntamente com Jilmar, responsável pelos acordos
feitos com vereadores para a votação de projetos
prioritários para a gestão da petista (aquela que,
suspeita o Ministério Público, inaugurou a moda do
mensalão - distribuição de propina em troca de
apoio político). Juntos, Arselino e Jilmar Tatto também
respondem por quinze acusações de fraudes e
irregularidades administrativas, todas igualmente sob investigação
no Ministério Público.
Ao ser solto, no último
dia 15, Pandora, cabisbaixo, disse aos policiais ter certeza de que
será morto pelo PCC. Seria queima de arquivo. Ele é
peça fundamental na investigação que se inicia
agora e que representa o primeiro passo para abrir a milionária
caixa-preta que é o mercado de lotações de São
Paulo, cujo faturamento anual chega a 900 milhões de reais.
Saber até que ponto ele já se tornou uma espécie
de braço legal do PCC e. sobretudo, quais são as forças
que acobertam essa ligação
- será o
principal desafio da polícia.
JULIANA
LINHARES
Com reportagem de Renato Piccinio
(VEJA, 28 de junho de 2006, pp. 62-63)