Brasil
A última de Zé Dirceu
Agora,
ele negocia a venda da Varig com milionário russo para pegar
uma comissão - e financiar a própria bancada
Otávio
Cabral
O ex-ministro e ex-deputado José Dirceu, seis
meses depois de ter o mandato cassado sob a acusação de
comandar o esquema do mensalão, está de volta à
política como ele a entende - trabalha para obter dinheiro
para sustentar campanhas eleitorais. No início deste mês,
Dirceu teve três - nem um, nem dois, mas três encontros
com o enroladíssimo magnata russo Boris Berezovsky, dono de
uma fortuna avaliada em 10 bilhões de dólares. De
acordo com um petista familiarizado com os negócios de Dirceu,
o principal assunto entre o ex-deputado e Berezovski foi a Varig. O
magnata russo vive exilado em Londres para fugir dos processos que
sofre na Rússia por contrabando e lavagem de dinheiro e até
da suspeita de ter cometido um assassinato. Seu fundo de investimento
teria 1 bilhão de reais já destinado à compra da
Varig. O papel de Dirceu, ainda segundo esse petista, é
convencer o governo brasileiro a colocar 100 milhões de reais
na transação por meio do BNDES. Se a influência
de Dirceu no BNDES ainda for forte como costumava ser, há
chance de o negócio prosperar.
"Finalmente o
Dirceu vai conseguir trazer dinheiro de Moscou para o PT",
ironiza o deputado petista que relatou a história. Os três
encontros de Dirceu com Berezovsky
ocorreram nos dias 2, 3 e 4 de maio, todos numa mansão no
bairro do Pacaembu, em São Paulo, cedida pelo empresário
Renato Duprat, que virou celebridade depois de levar à
falência o grupo Unicor, empresa de planos de saúde. A
idéia de Dirceu, conforme comentou com um interlocutor, é
arrancar uma comissão de uns 20 milhões de dólares
intermediando o negócio da Varig e, com isso, financiar a
eleição de sua bancada. Isso mesmo: Dirceu está
arrecadando dinheiro para eleger sua própria bancada. Nos seus
planos, pretende financiar a campanha de dez candidatos à
Assembléia Legislativa de São Paulo e onze candidatos a
deputado federal, entre os quais figuram João Paulo Cunha, o
dos 50.000 reais do valerioduto, e Angela Guadagnin, a passista do
mensalão (veja a lísta
completa abaixo). Sem mandato,
com seus direitos políticos cassados até 2015, e sem
caneta para fazer nomeações, Dirceu aposta na eleição
de amigos muito próximos para manter a influência no
governo e dentro do PT.
No governo, o trânsito de Dirceu
continua desimpedido. Antes do encontro nacional do PT, um mês
atrás, no qual foi liberada a farra de alianças com os
partidos mensaleiros, Dirceu esteve com o presidente Lula, na Granja
do Torto. Discutiram a estratégia que deveriam adotar no
encontro petista. Há duas semanas, Dirceu voltou a falar
longamente com Lula, mas, dessa vez, o diálogo foi por
telefone, e nada se sabe dele. O interesse de Dirceu na Varig, porém,
já se espalhou pelo governo. Como vive exilado em Londres,
fugindo de processos em sua terra natal, Berezovsky tem demonstrado
interesse em mudar-se para o Brasil. Ele já deu o primeiro
passo quando se tornou investidor do grupo MSI, que controla o
futebol do Corinthians. Com os negócios, trouxe também
suas suspeitas de maracutaias. Um dia depois de se reunir pela última
vez com Dirceu, o magnata russo foi interrogado durante oito horas
por dois procuradores do Ministério Público que
investigam irregularidades financeiras na gestão do
Corinthians pela MSI. Encerrado o depoimento, voltou para Londres em
seu jato particular. Se depender de Dirceu, o russo estará de
volta em breve nas asas da Varig.
A bancada
do Zé
Cassado
por comandar o mensalão, José Dirceu agora tenta criar
uma nova maneira heterodoxa para manter alguma influência no PT
e dentro do governo - o financiamento particular de campanha. Seu
plano é conseguir dinheiro para ajudar nas campanhas de pelo
menos onze deputados amigos. Confira a lista completa:
MAURÍCIO
RANDS (PT-PE)
Foi um dos
líderes do governo na CPI dos Correios. Sua função
era atrapalhar as investigações
PAULO
PIMENTA (PT-RS)
Teve que
deixar a CPI do Mensalão após usar lista apócrifa
de Valério contra os oposicionistas
LUIZ
SÉRGIO (PT-RJ)
Ficou
marcado por discursar em defesa da absolvição dos
mensaleiros em todos processos de cassação
DEVANIR
RIBEIRO (PT-SP)
Amigo do
presidente Lula e linha de frente da defesa dos petistas mensaleiros,
é assíduo no Alvorada
ANGELA
GUADAGNIN (PT-SP)
Passista
da pizza, foi condenada a devolver 10 milhões de reais por
fraudes quando prefeita
EDUARDO VALVERDE
(PT-RO)
Ficou famoso por
agredir a senadora Heloísa Helena quando Daniel Dantas depunha
na CPI dos Correios
JOÃO PAULO CUNHA
(PT-SP)
Ex-presidente da
Câmara, embolsou 50 000 reais do valerioduto, mas acabou
absolvido
JOSÉ MENTOR (PT-SP)
Engavetou
a CPI do Banestado, recebeu 120000 reais do valerioduto e escapou de
perder o mandato
PROFESSOR LUIZINHO (PT-SP)
Livre
de cassação, foi acusado de dizer a fregueses de
restaurante: "Vocês pagam minha conta"
PAULO
ROCHA (PT-PA)
Sacou 920 000
reais de Valério e, com medo de ser cassado,
renunciou
RICARDO ZARATTINI (PT-SP)
Como
Dirceu, foi trocado pelo embaixador dos EUA seqüestrado em 1969
(Revista VEJA, http://veja.abril.uol.com.br, ed. 1.958, 31/05/2006)