Lula, Lulinha e Lu
André
Petry
"A
Assembléia pode até pensar em investigar o escândalo
de Lu e os 40 vestidos. Mas não vai. Geraldo Alckmin, o do
'banho de ética', já enterrou 64 pedidos de
CPI"
Depois de Lula, o presidente que nunca
sabe de nada do que acontece em seu governo, e depois de Lulinha, o
filho do presidente que conseguiu enriquecer sob o governo do pai,
chegou a vez de Lu. Seu nome é Maria Lúcia Alckmin, é
mulher do presidenciável tucano Geraldo Alckmin. Pois bem. O
estilista Rogério Figueiredo, dono de um ateliê
festejado de São Paulo, contou à jornalista Mônica
Bergamo, do jornal Folha de S. Paulo, que presenteou Lu Alckmin com
400 peças de alta-costura nos últimos anos. Repetindo,
para os incrédulos: 400 peças de alta-costura –
de graça.
O estilista explica que as 400 peças
formam algo em torno de uns 200 modelos completos. Como os modelos
completos de Rogério Figueiredo valem entre 3.000 e 5.000
reais, pois são coisa muito fina, dá para estimar que o
guarda-roupa de Lu, só em peças do estilista, é
um pequeno tesouro que vai de 600.000 a 1 milhão de reais. O
que não dá para estimar é em que confins da
ética Lu Alckmin foi buscar a idéia de que pode receber
presentes de 1 milhão de reais. (Em Brasília, a
comissão de ética pública determina que as
autoridades só recebam presentes de até 100
reais.).
Oito dias depois de ser confrontada com a notícia,
Lu Alckmin se manifestou. Disse que, na verdade, ganhou "apenas"
40 vestidos – coisa de 120.000 a 200.000 reais – e que
doou tudo a uma instituição de caridade. Esqueçamos
que ela ganhou muito mais de 40 vestidos segundo seu próprio
estilista, e esqueçamos que a instituição nega
que tenha recebido todas essas doações. Fiquemos com a
versão de Lu dos 40 vestidos. Cotados pelo preço médio,
dá 150.000 reais. É o mesmo que dizer que
ganhou:
-dois Land Rover, do mesmo modelo que a empresa GDK
deu a Silvio Pereira, do PT (e ainda sobra um troco para comprar uma
camisetinha na Daslu);
-umas 150 canetas Montblanc, iguais às
que o deputado João Paulo Cunha recebeu de presente do caixa
Marcos Valério;
-os 27 tailleurs que Marisa Letícia
recebeu – de graça, é claro – do estilista
capixaba Ivan Aguilar. Os modelos, se fossem pagos, sairiam por uns
30.000 reais. Isso significa que Lu Alckmin ainda tem 120.000 reais
de dianteira sobre Marisa. Quando a notícia do guarda-roupa de
Marisa veio à tona, tucanos e pefelistas ficaram tão
indignados com a exorbitante vaidade da primeira-dama que uns até
pediram o impeachment de Lula. E agora?
A fartura do
guarda-roupa de Lu dá para bancar até umas semanas do
mensalão do seu marido. O governador Geraldo Alckmin
despachava verbas publicitárias da Nossa Caixa para
publicações e programas de rádio e TV dos
deputados estaduais em troca do voto favorável aos projetos do
governo. Guardadas as proporções, era a versão
paulista do mensalão de Lula. Com o guarda-roupa de Lu, dá
para bancar o mensalão de uns dois ou três deputados.
A
Assembléia Legislativa de São Paulo pode até
pensar em investigar o escândalo de Lu e os 40 vestidos. Mas
não vai. Geraldo Alckmin, aquele que prometeu um "banho
de ética", já conseguiu enterrar 64 pedidos de
CPI.
(Revista Veja, Edição 1950, 5 de abril de 2006)