Administração
Estadual
Segurança Pública -
6/6/2006 15:51
O ovo da serpente
Como o crime é alimentado dentro do presídio
Edmar
de Oliveira Ciciliati *
Advogados,
juristas, acadêmicos de plantão e outras autoridades
que, na maioria, jamais cruzaram os portões de um presídio
ou conversaram com um criminoso, instigados, rapidamente põe-se
deitar opiniões sobre as razões do crescimento do crime
organizado que emerge dos presídios paulistas e culminaram nos
covardes e inescrupulosos ataques ocorridos recentemente que
atingiram, principalmente, os integrantes das Polícias Civil e
Militar de São Paulo.
Todos, sem exceção,
concluem que se faz necessária a punição
exemplar dos envolvidos que, segundo entendem, devem ser processados
e presos. Ocorre que os responsáveis por esses delitos já
estão presos. Assim, é fácil concluir que o
raciocínio está equivocado, pois pretendem chegar a um
final que, verdadeiramente, significa o início do problema.
São incontáveis as rebeliões com
milhares de reais em prejuízo material, sem contar o humano.
Destacam-se, com razão, as mortes de policiais, agentes
penitenciários e até de um magistrado. Mas ignora-se
que, diariamente, a mesma facção criminosa determina a
morte de dezenas de pessoas nas periferias das grandes cidades sem
que nada disso tenha repercussão ou punição na
forma necessária.
Um jovem qualquer no Estado de São
Paulo, seja nas grandes, médias ou pequenas cidades, é
condenado por um delito qualquer que impossibilite uma substituição
por alguma das inúmeras penas restritivas, e a seguir é
encaminhado a uma unidade prisional, seja administrada pela SAP, seja
pela SSPSP. Chega ao presídio quase sempre sem roupas,
descalço, sem qualquer apoio externo, em situação
de absoluta miserabilidade, assim como a própria família
que fica do outro lado.
Rapidamente é socorrido pelos
"irmãos" mais poderosos que se encontram naquele
presídio. Recebe roupas, tênis de marca, algum auxílio
financeiro para si e para a própria família, drogas
para consumo e, imediatamente, se torna devedor para com aqueles.
Logo após é "batizado" pela facção
e se torna mais um "irmão". Feito isso, está
irremediavelmente comprometido com o crime, sem nenhuma perspectiva
de retorno normal ao convívio social.
Dentro do
presídio receberá a visita íntima de uma
namorada, ou companheira, ou esposa. Em pouco tempo seu companheiro
de cela perguntará se aquela namorada, companheira ou esposa
não tem uma colega que possa visitá-lo já que
está só. Jovens encantadas pelo suposto poder
transmitido pelo meio criminoso é o que não falta, e
dias depois aquela outra jovem já está incluída
no rol de visitas daquele outro preso, e assim sucessivamente.
Em
pouquíssimo tempo, todas essas jovens são transformadas
em cúmplices, ora comandando pequenos pontos de tráfico
nas ruas a mando dos presos, ora servindo como "mulas",
para introdução de entorpecentes, celulares, armas ou
corrompendo funcionários a mando daqueles sentenciados.
Algumas, na verdade, são apenas incluídas como visitas
de presos sem que tenham qualquer relação com eles,
apenas servindo para o transporte de drogas, celulares e outras
coisas, além de manterem relações sexuais com
outros detentos mediante pagamento. É o ciclo vicioso, o ovo
da serpente.
É fácil imaginar que se são
mais de cem mil presos, e cada um deles tem vinculação
com quatro ou cinco criminosos nas ruas, temos milhares de criminosos
diariamente nas ruas a serviço daqueles que se encontram
presos. Passa-se algum tempo, bem curto aliás, e aquele jovem
mencionado inicialmente está nas ruas novamente, em liberdade.
É mais um soldado da facção.
Terá
que cumprir, sem discutir, qualquer ordem que receber dos "generais",
posto que, entre eles, os processos possuem cognição
sumária, sem direito a recursos e Habeas Corpus, e terminam
quase sempre com a frase fatal: "xeque-mate". Em instantes
aquele indivíduo estará morto, assim como toda sua
família considerando, eventualmente, a gravidade da afronta
que tenha feito segundo os critérios do crime. Assim ocorre
com os que desobedecem, como com aqueles que se interpõem no
caminho de algum "irmão" que controle algum ponto de
tráfico de interesse da facção, como àqueles
que ficam com dívidas para com o comando da associação.
O cerne, a questão central do problema que fomenta o
crescimento e fortalecimento das facções criminosas,
está centrado em três pontos que resumidamente acaba em
um único: as visitas, a comunicação via celular
e a ausência de punição. Indignam-se as
autoridades e acadêmicos com a facilidade de ingresso de
celulares nos presídios.
Desconhecem, entretanto, que
dezenas, centenas de mulheres são detidas todas as semanas
levando no interior dos seus corpos (vagina e ânus) um, dois e
até três celulares de cada vez, sem contar as drogas.
Desconhecem que os detectores de metal são ludibriados.
Desconhecem que mulheres grávidas (que não podem ser
submetidas a RX) são as mais utilizadas. Desconhecem que a
simples ameaça de uma revista mais detalhada em uma mulher na
portaria de um presídio pode, imediatamente, desencadear uma
rebelião com conseqüências físicas para os
funcionários que, seres humanos, evidentemente têm
receio quanto à própria segurança e de
familiares totalmente desamparados pelo Estado.
Desconhece a
maioria que um celular apreendido no interior de uma cela quase
sempre é dado como de propriedade de um preso que, na verdade,
nem sequer chega perto daquele aparelho, mas é obrigado a
assumir a sua propriedade para não sofrer represálias
do verdadeiro proprietário. Como a lei não prevê
responsabilidade objetiva ou coletiva, acaba sempre punindo o
"laranja". O mesmo ocorre com os crimes e rebeliões,
posto que os verdadeiros autores estarão protegidos pelo
exército de "laranjas" a seu dispor.
Desconhecem
os acadêmicos que presos não podem ser lançados
no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) sem decisão judicial.
A decisão judicial, a seu turno, depende de provas. E as
provas, nesse meio, são quase impossíveis de conseguir,
pois a responsabilidade, na maioria das vezes, como já dito, é
lançada sobre laranjas, e os verdadeiros mandantes continuam
impunes.
Desconhece a população (e muitas
autoridades) que a maioria dos ônibus que transportam visitas
de presos para as diversas regiões do Estado são de
propriedade (ou pagos) pela própria facção
criminosa, servindo gratuitamente aos familiares. Desconhece a
população e a maioria das autoridades que os presídios
não possuem alas próprias para visitas íntimas
ou de familiares, de maneira que elas são feitas nas próprias
celas, facilitando o ingresso de celulares, armas e drogas, bastando
que a visita consiga passar pela revista inicial.
Desconhecem
as autoridades que o serviço de inteligência nessas
áreas tem que se valer, basicamente, da escuta telefônica.
Ocorre que presos trocam, diariamente, cinco, seis ou sete aparelhos
telefônicos, assim como colocam em conferência 10 ou 12
outros sentenciados de uma só vez, em várias
localidades diferentes. O rigorismo legal, e o formalismo próprio
do procedimento de interceptação telefônico,
assim como as regras de competência jurisdicional impedem,
quase que totalmente, um serviço de inteligência eficaz
nesse plano.
A medida tomada pela Secretaria da Administração
Penitenciária removendo para uma só unidade do Estado
quase todos os líderes ou principais simpatizantes da facção
é positiva e beneficia. Se você tem um problema qualquer
disseminado, manda a boa técnica que reúna todos
aqueles pontos em um só local para que o controle possa ser
mais efetivo. A questão que se coloca é, por que será
que isso não foi feito antes ? Será que as autoridades
menores jamais pensaram nisso? Será coincidência o fato
de isso só ter sido feito após a mudança de
governador, tendo assumido um homem que não tem pretensões
políticas maiores? Não é candidato a nada!
As
represálias eram previstas, e com ela as repercussões
negativas que poderiam atingir uma candidatura. E vão
continuar certamente. Em pouco tempo, assim que comecem a receber
visitas, esses líderes reunidos irão tentar a
articulação com os que estão fora ou em outras
unidades. Será aí que o Estado terá que mostrar
a firmeza necessária. Não basta colocar todas as
lideranças em um único presídio. As visitas não
podem ter acesso às celas. Os presos é que devem se
deslocar, sendo revistados no momento em que voltam a elas. Qualquer
celular, arma ou droga, nessas hipóteses, só poderá
existir em caso de corrupção interna, o que é
bem mais fácil de identificar e impedir.
Não se
justifica o contingente enorme de visitas todos os finais de semana.
Basta olhar as saídas de presídios para se ver mulheres
levando um filho pela mão, outro no colo e grávida de
outro. Se o marido ou companheiro está preso, quem sustentará
essas crianças? Quem sustentará ou educará
aqueles que são gerados no interior das celas? Qual o futuro
que espera essas crianças que, desde tenra idade, aprendem que
o certo é aquele lado. Que fazem de presos, criminosos
perigosíssimos, seus heróis? Qual o grau de
comprometimento ético e moral dessas crianças no
futuro? O que é que justifica crianças de dois, três,
cinco anos de idade, circulando em pavilhões e celas de
penitenciárias todos os finais de semana, brincando de bandido
e polícia e quase sempre recusando-se a escolher outro lado
que não seja o primeiro? Novamente vê-se o ovo da
serpente.
Como se justifica que uma mulher qualquer, apenas
juntando uma declaração firmada por duas testemunhas
(quase sempre mulheres de outros presos), possa se apresentar em uma
unidade prisional e ser incluída no rol de visitas de um preso
que, no mais das vezes, ela nem sequer conhece, quando se sabe que,
na verdade, pretende apenas introduzir drogas, celulares, armas ou
mesmo se prostituir no local? É, em última análise,
o próprio Estado fechando os olhos para o tráfico e
para a prostituição. É o crime
institucionalizado.
Para que visitas todos os finais de semana
e feriados seguidos? É ilusão pensar que criminosos são
por demais apegados à família. Já estão
presos exatamente porque não respeitam os outros, nem pensam
neles. As visitas, quase sempre, com raras exceções que
sempre existem, são a própria sobrevivência do
indivíduo em termos materiais e para mantença da sua
situação no mundo do crime.
Até entre as
mulheres de presos existe hierarquia. Mulheres dos líderes não
se submetem a filas nos presídios. Entre elas existe
verdadeira malha de informações. Transmitem as
informações. Conseguem as contas bancárias em
nome de terceiros para que sejam feitos os depósitos derivados
do tráfico e de extorsões nos presídios, enfim,
significam, basicamente, a base de sustentação do crime
que emerge dos presídios paulistas.
Agiu corretamente o
governo paulista. Não deve, nem pode recuar, sob pena de
perder a guerra definitivamente. Mas são necessárias
várias outras medidas, algumas de cunho legislativo.
Restrições a visitas íntimas. Exigência de
comprovação de estado de casado (certidão ou
sentença judicial reconhecendo união estável).
Proibição do ingresso de menores e adolescentes nos
pavilhões dos presídios. Instalação de
aparelhos de revista eletrônicos. Cruzamento de dados
relacionados com visitas.
Criação de uma
central de inteligência relacionada com a matéria, com
pessoas que realmente conheçam do assunto. Integração
com o Ministério Público e o Judiciário para
centralização e agilização dos
procedimentos relacionados com crimes emergentes do sistema
prisional. Uniformização de entendimento relacionado
com aplicação da Lei de Execução Penal (o
que vale para uma região tem que valer em outra), enfim, uma
série de medidas que demandam esforço, estudo,
interesse e conhecimento do problema. Sem teorias acadêmicas ou
argumentos despropositados formulados por quem nada conhece do
assunto.
Marcolas e assemelhados existem aos milhares no
sistema prisional. A questão não é de nomes ou
de líderes. A questão é o próprio
sistema. Se nada for feito, o simples recolhimento dos líderes
na forma realizada significará apenas e tão somente uma
maior demora para a eclosão do ovo, do qual será gerada
uma serpente ainda maior e mais perigosa do que a existente
atualmente.
*Edmar de Oliveira
Ciciliati é Juiz de Direito
(Projeto BR, http://www.projetobr.com.br, 06/06/2006)