'O Katrina mostrou um país despreparado'
Para Biguenet,
lentidão da reconstrução reflete lições
não aprendidas e o despreparo dos EUA para enfrentar ataque
terrorista
Paulo
Sotero
John Biguenet, contista e professor de
literatura da Universidade Loyola, de New Orleans, afirma que os
americanos ainda não entenderam o que aconteceu um ano após
a grande catástrofe que se abateu sobre New Orleans. "O
que sabem, provavelmente está errado", escreveu ele na
semana passada em sua coluna no site do New York Times.
Um
dado ignorado, por exemplo, é que, proporcionalmente, morreram
mais brancos do que negros. "Dos 1.300 mortos, 50% eram brancos,
segundo um levantamento recente da imprensa local", disse ele.
"Como os brancos eram menos de 30% da população,
sofreram uma proporção maior de perdas".
Segundo
ele, essa explicação é importante não
pela questão racial, mas porque mostra a escala da destruição,
que atingiu quase todas as partes da cidade.
Biguenet deixou
New Orleans com sua mulher antes da chegada do furacão. O
casal voltou dois meses depois para começar a reconstruir sua
casa inundada em Lakeview. Na sexta-feira, ele falou ao
Estado.
Por que, em sua opinião, as pessoas
não compreenderam até hoje a dimensão do que
ocorreu em New Orleans?
Não há episódio
semelhante na história americana. Não sabemos como
falar a respeito e não sabemos como compreender o que
aconteceu. Nunca antes uma cidade americana foi completamente
abandonada, na esperança de que seus cidadãos
retornariam. Esse é um elemento da história da
catástrofe que os americanos não estão
preparados para absorver e entender. As implicações de
esvaziar uma grande cidade moderna são tantas que é
muito difícil para as pessoas imaginarem o que aconteceu
aqui.
O que elas não compreendem?
Não
compreendem que aconteceram dois desastres naquele dia. Um foi um
desastre natural - o furacão Katrina - que, na verdade, virou
para leste antes de atingir terra e poupou a cidade. O lado perigoso
de um furacão é o leste. Nós fomos atingidos
pelo lado oeste do Katrina, o mais fraco. Alguns telhados foram
danificados, árvores caíram, etc. Mas se tivéssemos
sido atingidos apenas pelo furacão, todos teriam voltado para
casa, a vida teria se normalizado em três dias e não
estaríamos falando do Katrina. Mas sofremos também as
conseqüência de um desastre causado por falha humana. E o
fato de ter sido no mesmo dia do desastre natural, confunde as
pessoas até hoje. A catástrofe não foi provocada
pelo furacão. Ela resultou da incompetência do Corpo de
Engenheiros do Exército, uma agência federal, que
construiu diques inacreditavelmente defeituosos. As chapas de aço
instaladas nos diques para conter as águas não chegavam
sequer ao fundo do canal. E foi aí que os diques cederam. A
água não passou por cima, passou primeiro por baixo dos
diques em quatro pontos diferentes, antes de arrebentá-los.
O
que já foi reconstruído?
Um ano depois, tudo
o que temos é a promessa de que todas as partes dos diques que
cederam ou foram afetadas serão remendadas, com os mesmos
defeitos de antes. E, sem um compromisso de que New Orleans será
protegida por um sistema de diques capaz de suportar um furacão
categoria 5 (o mais grave na escala que mede a força de
ciclones), as pessoas, os negócios e os investimentos não
voltarão. Dos 550 mil habitantes, 300 mil ainda não
voltaram e não creio que voltarão.
Em
resposta a sua coluna no 'New York Times', vários leitores
lembraram que quem escolhe morar em zonas sujeitas a inundações
devem estar preparado para viver com as conseqüências.
Isso
não altera o fato de que o governo construiu diques que
falharam e destruíram 80% de New Orleans, matando 1.300
cidadãos. Vivemos na foz do maior rio dos EUA, pelo qual passa
metade do petróleo e do gás consumido pelos americanos.
Não vivemos num balneário. New Orleans ocupa posição
estratégica. É o segundo maior porto americano do
Atlântico. Não estamos aqui porque gostamos do
clima.
A cidade continua vulnerável?
A
probabilidade de a mesma coisa repetir-se é pequena e não
está num furacão, mas num ataque terrorista ou acidente
industrial, algo que torne uma cidade inabitável por um
período de um ou dois meses. Com exceção de
Chernobyl, na Ucrânia, não se tem esse tipo de
experiência desde a 2.ª Guerra. Mas, considerando o mundo
em que vivemos, não creio que seja impossível que isso
aconteça em outro lugar. O problema é que o desastre,
quatro anos depois do 11 de Setembro, mostrou o país
totalmente despreparado para enfrentar uma emergência em grande
escala. A julgar pelo ritmo da reconstrução de New
Orleans, não creio que o país tenha aprendido
muito.
Um ano depois, como está New Orleans?
No
French Quarter e nas áreas ao longo do Rio Mississippi, a
aparência é de que nada aconteceu em New Orleans um ano
atrás. Vista daí, continua tão linda e vibrante
quanto antes. Mas isso representa só 20% da cidade. Os outros
80%, a cidade atingida por uma inundação catastrófica,
se recupera muito lentamente.
Por quê?
Por
falta de liderança eficaz em todos os níveis, do
municipal ao federal.Tivemos falhas repetidas em tomar decisões
capazes de liberar os recursos disponíveis, que permitiriam a
reconstrução. Há grande hesitação
em fazer qualquer tipo de plano em larga escala. Em vez disso, as
autoridades pediram aos bairros para apresentar seus planos. E não
há nenhuma coordenação.
(O Estado de S. Paulo, Internacional, 27/08/2006)