Menores rezam pelo PCC na Febem
Ritual
segue rígida hierarquia e fisionomia dos garotos se altera
FÁBIO MAZZITELLI
No meio da quadra, os internos, de mãos
dadas, formam dois círculos. No menor, só os líderes,
ou "faxinas", grupo de 15 jovens que puxam os gritos
rodeados por outros 45, que integram o círculo maior. Todos os
adolescentes participam da "reza", que se inicia com um
Pai-Nosso e termina com palavras de apoio ao Primeiro Comando da
Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV). Entoado diariamente no
Complexo Tatuapé, com veneração intimidadora,
tal ritual é a expressão mais forte da cultura do crime
organizado existente no cotidiano dos internos da Fundação
Estadual do Bem-Estar do Menor, a Febem paulista.
Entre 23 de
janeiro e 24 de fevereiro deste ano, trabalhei como agente
educacional na Unidade de Internação 9 (UI-9) da Febem
e acompanhei de perto o dia-a-dia do Complexo Tatuapé, na Zona
Leste de São Paulo. O local é o maior centro de menores
infratores do Estado, com 18 unidades de internação e
cerca de 1.200 adolescentes cumprindo a mais restritiva das medidas
sócio-educativas previstas pelo Estatuto da Criança e
do Adolescente (ECA). Os internos do Tatuapé somam 20% do
total de menores infratores privados de liberdade sob
responsabilidade do governo paulista.
No complexo, há
grandes diferenças de perfis dos internos, o que também
existe dentro das UIs, embora a lei exija que se faça uma
criteriosa separação por idade, compleição
física e gravidade da infração. Na unidade em
que estive, havia desde primários de 14 anos usuários
de crack até jovens maiores de idade, homicidas e
reincidentes.
No papel, parte do apelidado "circuito
médio" do Tatuapé, a UI-9 era para ser uma unidade
só para internos que estivessem cumprindo uma medida de
internação pela primeira vez na vida e por causa de
infração de gravidade média (primários
médios), como furto ou roubo sem arma de fogo. Para os
internos reincidentes e infratores graves, caso de alguém que
cometeu homicídio, fica reservado um conjunto de sete
unidades, conhecido no complexo como "circuito grave", que,
segundo os próprios funcionários, "é outra
história".
No primeiro dia de trabalho, durante a
apresentação do diretor-geral aos novos agentes
educacionais, ouvi do responsável pelo complexo algo que
resumiria o universo em que eu mergulhara. "Há sete
unidades sob nosso controle. As outras dez estão com
problemas, com perfil de cadeia", disse ele.
Na UI-9,
como nas prisões, havia uma rígida hierarquia entre os
internos e os novatos tinham de se submeter às lideranças
da unidade. Os 15 "faxinas" distribuem a comida, cuidam da
limpeza e decidem sobre quando e o que conversar com os funcionários.
Dois deles são eleitos os "vozes", líderes
máximos da unidade, que, entre outras funções,
dão a palavra final sobre punições a
adolescentes que desrespeitem códigos de conduta e são
os interlocutores principais dos demais internos.
Nesse
contexto, João (nome fictício, como todos os usados
neste texto) destacava-se. Jogava como centroavante no time da UI-9 e
era também o "voz" da unidade. Em 3 de fevereiro,
quando participava de um treino de futebol, viu sua mãe chegar
e abriu um sorriso. Ela trazia a decisão judicial que o
desinternava, a senha para a liberdade. João recebeu abraços
e cumprimentos dos colegas. A maior saudação,
entretanto, ocorreu no pátio interno: como já ocorrera
em outras oportunidades, a proibição da reza de
apologia ao crime foi ignorada. Em homenagem ao então líder
do grupo, todos se reuniram em círculos, entoaram o Pai-Nosso
e iniciaram o coro: "Guerrilhar sempre/ Vencer às
vezes/ Desistir jamais/ Um por todos/ Todos por um/ Unidos
venceremos/ 15-3-3/ PCC/ 3-21/ CV/ Boa!/ Boa!/ Boa!"
Em
toda reza, os "gritos proibidos" eram alternados entre os
faxinas e a "população", de modo que cada
grupo ficasse com uma parte do hino, obrigatório em momentos
de despedida. Ao final, todos se uniam para gritar o "boa",
repetidas vezes. Palavra-chave para os jovens, significa "liberdade"
ou "fuga", o que não deixa de ser uma forma de se
obter a condição de livre.
Diariamente, era
possível ouvir o ritual em um ou mais pontos do complexo,
principalmente no final de tarde e início de noite. Na UI-9,
mesmo com a prática proibida, a reza era entoada no momento em
que os adolescentes a julgavam necessária, sobretudo quando um
"irmão" deixava a unidade, seja em liberdade ou por
força de transferência. Durante o ritual, a fisionomia
dos jovens se modificava com os gritos, como se estivessem se
preparando para uma guerra.
(Jornal
da Tarde, “Política”, 09/04/2006, p. 8-A)