Administração Estadual

PCC negociou fim de motim em SP


A rebelião da prisão feminina Sant'Ana, na Zona Norte, terminou após conversa entre líderes da facção e autoridades prisionais


RITA MAGALHÃES


O fim da rebelião da Penitenciária Feminina Sant'Ana, na Zona Norte de São Paulo, foi negociado por líderes do Primeiro Comando da Capital (PCC) detidos em outras unidades prisionais no Interior do Estado. A decisão foi tomada numa teleconferência entre quatro presos, uma advogada e a mesa de negociação formada pelo coordenador dos presídios da Capital, Perci de Souza, a direção da unidade e o diretor do Departamento Inteligência, coronel Olinto Neto Bueno.

Violento, o motim durou oito horas e deixou oito funcionárias feridas, uma delas gravemente com fratura na bacia e numa das pernas. O inferno só teve fim quando a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) concordou em remover do Anexo da Casa de Custódia de Taubaté as 15 detentas que são integrantes do PCC e foram transferidas da Capital para lá na sexta-feira. As rebeladas alegavam que as mulheres corriam riscos naquela unidade que abriga detentos do Terceiro Comando da Capital (TCC).

Segundo a SAP, as presas lideradas pela detenta Rosângela Aparecida Legramandi Peres, 35 anos, a Fia, foram levadas para o Interior porque ameaçaram matar outras três ou quatro presas, mulheres de integrantes de facções rivais. Fia foi a primeira pessoa a ser condenada a 5 anos de prisão em regime fechado por formação de quadrilha com integrantes do PCC.

Acusada de ser tesoureira e pombo-correio do PCC, ela foi presa em março de 2003 pelo Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic), durante apuração do assassinato do juiz-corregedor de Presidente Prudente, Antônio José Machado, o Machadinho, executado por ordem da facção. Mas, segundo representantes da SAP e agentes penitenciários, a transferência foi apenas uma desculpa para o desencadeamento do motim. "Há mais de dez dias sabíamos de que o PCC tinha autorizado essa rebelião. A estratégia da facção é desestabilizar o sistema prisional para prejudicar o PSDB nas eleições", disse uma autoridade do sistema prisional.

De fato, num único dia houve uma onda de quatro rebeliões em presídios. Ontem, por exemplo, só em Ribeirão Preto houve dois motins: mal tinha acabado o primeiro, na Penitenciária local, com a liberação de 11 reféns, quando começou outro na Penitenciária Feminina. Mais um casal de funcionários foi dominado pelas detentas. A nova rebelião se estendia pela noite, ontem.

Os presos de Ribeirão Preto, onde também foi encontrado um buraco de seis metros escavado pelos detentos, reclamam de excessos na revista íntima de seus familiares. Um agente penitenciário foi acusado de assédio sexual à mulher de um preso. Ele teve de ser retirado do presídio. No domingo, três mulheres foram detidas em revista quando tentavam ingressar com droga no presídio. Em todas as penitenciárias em que houve motim, ontem, o dia foi de revista. Em Lucélia, a rebelião acabou por volta da 1h30. Lá foram encontrados dois objetos imitando arma de fogo e seis celulares. Descobriu-se também que os presos estavam cavando dois túneis - um já tinha 2 metros e o outro, 5.



(Jornal da Tarde, Cidade, 22/02/2006)