Administração
Estadual
Marcola teme virar ‘morto vivo’ em prisão federal
Ouvido
pela CPI do Tráfico de Armas no último dia 8 de junho,
Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, fez um pedido aos
deputados no final da inquirição: “Posso fazer
uma pergunta?” O deputado Moroni Torgan (PFL-CE), presidente da
CPI, aquiesceu: “Pode”. E Marcola: “Pode ser em
off, entre nós?” Moroni, de novo, concordou: “Então,
eu vou encerrar aqui (...)”.
Essas foram as últimas
palavras registradas na gravação feita nas dependências
da prisão de Presidente Bernardes, onde o líder do PCC
foi ouvido. Moroni mandou desligar o gravador. E Marcola, que passara
quatro horas e treze minutos respondendo a perguntas, inverteu os
papéis: “Como é o regime de segruança da
prisão de Catanduvas?”
O prisioneiro parecia
pressentir o que o futuro lhe reservava: uma transferência para
o primeiro presídio federal de segurança máxima.
Foi inaugurado pelo ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça)
no mês passado. Fica no município paranaense de
Catanduvas, a 438 km de Curitiba.
Marcola quis saber se, em
Catanduvas, seria submetido a um regime mais draconiano que o de
Presidente Bernardes. Os deputados responderam que o RDD (Regime
Disciplinar Diferenciado), praticado na prisão paulista, está
previsto numa lei (10.792), editada sob Lula em dezembro de 2003.
Portanto, as condições carcerárias de
Catanduvas, não poderiam exceder os termos da lei.
Livre
do gravador, o líder do PCC (Primeiro Comando da Capital)
disse aos deputados, segundo relato de dois deles ao blog, que receia
tornar-se um “morto vivo” caso seja levado para
Catanduvas. Os temores de Marcola não são infundados.
Sua transferência, junto com outros líderes de sua
facção criminosa, está sendo acertada entre o
governo de São Paulo e o Ministério da Justiça.
A
operação, noticiada em reportagem de André
Caramante nesta quarta-feira, já havia sido esboçada em
24 de junho no sítio da Federação Nacional dos
Policiais Federais. Escutas telefônicas realizadas pelo setor
de inteligência da polícia de São Paulo teriam
detectado o receio do isolamento em Catanduvas. O governo paulista
atribui a isso a retomada da onda de ataques criminosos do PCC –foram
73 atentados nas últimas 48 horas, com pelo menos oito mortos
(incluindo dois cadáveres não contabilizados no
levantamento oficial).
Trancafiados em Catanduvas, criminosos
como Marcola serão privados de exercer o controle sobre a
maioria dos cerca de 140 mil presos detidos em São Paulo. No
depoimento à CPI, cujos principais trechos foram divulgados em
três despachos aqui no blog (um, dois, três), Marcola
deixa claro o controle que o PCC exerce sobre o cotidiano dos
cárceres paulistas.
A leitura do depoimento (clique
para ir à íntegra. O pedido de Marcola para desligar o
gravador encontra-se na última página, de número
205) deixa claro que o PCC impõe a sua própria
disciplina aos presídios. Marcola conta, por exemplo, que a
facção proibiu o uso do crack e o homossexualismo entre
os presos (páginas 26 e 27 do depoimento). Disse que as
decisões foram adotadas após consultas feitas aos
presídios por meio de telefones celulares.
Nas palavras
de Marcola, ao fixar regras de convivência nos cárceres,
o PCC “tirou a autoridade do Estado”. Para o criminoso,
será “difícil” o poder público
voltar a impor a sua vontade nas prisões. Uma coisa é
possível intuir: a simples transferência de Marcola e
seus comparsas não vai resolver a encrenca da segurança
pública em São Paulo. Em atividade há mais de
uma década, a usina do PCC não tardará a
fabricar novos Marcolas.
JOSIAS
DE SOUZA
(Blog do Josias de Souza, http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/, 13/07/2006, 02h35)