A Codesp e o porto de Santos
A
Companhia Docas do Estado de São Paulo é uma das jóias
da coroa da fisiologia política federal em São Paulo
QUEM QUISER munição para a campanha
eleitoral é só olhar para o porto de Santos. A Codesp
(Companhia Docas do Estado de São Paulo) é uma das
jóias da coroa da fisiologia política federal em São
Paulo. No governo passado, era território de Michel Temer. No
atual, o presidente, José Carlos de Mello Rego, foi colocado
por Waldemar Costa Neto; o diretor comercial, Fabrício Piero
Domenico, por Telma de Souza; o diretor de engenharia, Arnaldo
Barreto, pelo deputado Vicente Cascione; e Mauro Marques, diretor
administrativo e financeiro, foi indicado por Paulo Frateschi,
presidente do PT-SP.
Cinco meses depois de empossada, a atual
diretoria, ainda em 2003, por meio de um Termo Provisório de
Uso, entregou à Santos-Brasil 200 mil m2 de área sem
licitação. Fez mais: garantiu à companhia que
ela seria ressarcida de qualquer investimento efetuado, no caso de
futura licitação. Mais: a Codesp seria a avalista da
operação, no caso de questionamento de valor por parte
do novo adquirente. Houve questionamento jurídico, e a Codesp
prometeu abrir licitação. Nunca o fez.
Agora, a
Codesp acaba de passar para a Santos-Brasil uma nova área de
100 mil m 2, sem licitação. Um dos operadores do porto
enviou carta à companhia manifestando interesse na área
e solicitando que ela fosse licitada. A resposta do diretor Fabrício
foi a de que não levaria o pedido para a Direx (reunião
de diretoria), nem para deferimento, nem para indeferimento
(circunstância que permitiria à empresa entrar com
processo de anulação da doação). A
alegação do diretor é que a área doada
era contígua à da Santos-Brasil. Contígua à
área que havia sido passada sem licitação.
Para
legitimar a operação, a Codesp foi buscar na Lei de
Licitações a figura do "adensamento de área"
-que permite ao governo aditamento de 25% no contrato original. Pelo
aditamento, a Santos-Brasil irá pagar R$ 1 por m 2. Outras
empresas pagam R$ 20.
A Santos-Brasil é uma das jóias
da coroa do grupo Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas. E a
decisão final da Codesp sairá neste final de semana.
Tarifa e câmbio
A discussão no
âmbito da OMC sobre redução tarifária dos
produtos industriais dos países emergentes é
extemporânea -pelo menos em relação ao Brasil. Só
a apreciação cambial dos últimos anos
praticamente tornou negativas todas as tarifas de importação
praticadas antes da valorização.
Com o dólar
a R$ 2,90 e uma tarifa de importação de 35%, um produto
que custasse US$ 1.000 sairia, aqui, por R$ 3.915,00. Se a tarifa
caísse para 25%, o preço cairia para R$ 3.625 -redução
de 7%.
Com o dólar a R$ 2,10, o mesmo produto sairá
a R$ 2.625, redução de 33%. Se não se mexesse no
dólar, mas só na tarifa de importação,
significaria substituir a alíquota de 35% por uma de -2%. Se a
tarifa de importação fosse de 25%, só a mudança
do câmbio significaria uma tarifa negativa de 9,5% no período.
Reduzir tarifas sem corrigir o câmbio é suicídio.
A redução do dólar de R$ 3,00 para R$ 2,10
teve o mesmo efeito que as seguintes reduções
tarifárias: Uma alíquota de 50% caindo para 5%; uma
alíquota de 40% indo para -2%; uma alíquota de 30% para
-9%; e uma de 15% para -20%.
LUÍS
NASSIF
Blog: www.luisnassif.com.br
(Folha de S. Paulo, Folha Dinheiro, 07/07/2006)