O caso Brasif
Nas
últimas décadas, todas as concessões que
envolviam tarifas públicas foram vendidas de forma onerosa.
Quando os serviços de água de Manaus, ou as rodovias
paulistas, ou os serviços de telefonia, ou as concessionárias
de energia elétrica foram vendidas, venceu quem pagou mais. E
esse preço foi embutido nas tarifas. O consumidor pagou pelo
dinheiro que as concessionárias pagaram ao setor
público.
Imagine se o ilustre concessionário
recebesse de mão beijada um poste de iluminação
pública emprestado, para poder explorar comercialmente, ou uma
ponte, ou mesmo uma concessão de rodovia, sem licitação,
sem nada desembolsar, e garantisse sua exploração por
30 anos ininterruptos. Já seria um caso a pensar. E se
decidisse vender esses direitos?
Existem concessões
públicas que são exploradas pelo setor privado. Agora
se tem o primeiro caso em que a concessão pública é
negociada por uma empresa privada como se fosse sua.
Ó
o que está acontecendo com a Brasif -a empresa de Uberaba que
conseguiu o monopólio dos "free shops" em todos os
aeroportos brasileiros-, que planeja vender suas operações
para a Duty suíça pela módica quantia de US$500
milhões.
Qual o valor da Brasif? Seus estoques, seguramente
não, já que são muito menos diversificados do
que o de qualquer outro "free shop" conhecido. A marca,
muito menos.
O maior movimento da Brasif é de viajantes
que voltam do exterior com direito a comprar exclusivamente em suas
lojas até US$500 em mercadorias sem impostos.
Em qualquer
país sério, para serem transferidas concessões
necessitam da aprovação das autoridades reguladoras. Se
for concessão onerosa, pela qual o concessionário
pagou, haverá um ressarcimento pelo prazo que resta para
vencer a concessão. Se é uma concessão entregue
de mão beijada, há muito tempo a Infraero já
deveria ter aberto processo de licitação e regularizado
a situação.
Os US$500 milhões que a
Brasif pretende receber pertencem ao poder concedente. No caso dos
serviços essenciais, o poder público cobra do
concedente e permite que ele repasse ao cliente. O habitante de
Manaus é obrigado a pagar um valor adicional na tarifa de
saneamento, porque a concessionária pagou ao governo estadual
pelo direito de uso da concessão por prazo determinado.
A
Brasif ganhou a concessão de presente e, agora, diz que
pretende sair da área. Em vez de devolver a concessão
pela qual nada pagou, vende o presente a uma companhia suíça
pela módica quantia de US$500 milhões. Não tem
lógica.
E é bom que a Duty coloque as barbas de
molho antes de assinar o cheque. Em mãos menos influentes que
as que garantiam a Brasif, essa concessão não terá
vida longa. A não ser que a Infraero já tenha
assegurado a sua perpetuidade.
Aí, só a CGU
(Controladoria Geral da União), o Tribunal de Contas e o
Ministério Público para clarear a operação.
LUÍS
NASSIF
(Folha de S. Paulo, Folha Dinheiro, 21/03/2006)