"Tragam o Estado de volta"
Economista
diz que as forças de mercado não são a solução
para a pobreza e outros problemas fundamentais do mundo moderno
Por André Lahóz
EXAME
Um
dos arautos do neoliberalismo nos anos 80, Jeffrey Sachs é
hoje um dos mais veementes defensores da importância do Estado
como motor do desenvolvimento. Engajado num trabalho das Nações
Unidas para erradicar a pobreza no mundo -- o Projeto Milênio
--, o economista americano falou a EXAME sobre o papel dos governos
no século 21.
1-É
possível acabar com a pobreza sem a ajuda do Estado?
Não.
A erradicação da pobreza extrema exige investimentos em
saúde, educação e infra-estrutura. A iniciativa
privada não irá colocar dinheiro nas áreas mais
pobres do planeta, simplesmente porque não há mercado
nesses lugares. Há hoje mais de 1 bilhão de pessoas na
luta pela sobrevivência. Com ações bem
programadas do Estado, podemos acabar com esse problema até
2025.
2-Sua
tese de que o Estado tem um papel fundamental no desenvolvimento não
vai na contramão de tudo o que muitos economistas defendem?
A
questão não é Estado grande versus Estado
pequeno. Defendo gastos públicos eficientes em áreas
importantes. Veja o que ocorreu na África. Há uns 20
anos, o Banco Mundial dizia que a agricultura naquele continente não
funcionava devido à intervenção do Estado. E o
que foi feito? Acabaram com os subsídios a pequenos
fazendeiros. Resultado: a situação ficou ainda
pior.
3-Os
críticos dizem que os recursos se perdem no meio do caminho
por causa da corrupção na máquina estatal,
especialmente nos países pobres. Como é possível
resolver esse problema?
A
corrupção existe, mas ela não é a
principal causa da miséria. Essa idéia é
conveniente para os Estados Unidos, pois exime o país e outras
nações ricas da responsabilidade sobre o problema. A
pobreza só vai ser erradicada com investimentos. Esse dinheiro
tem de vir dos países ricos.
4-Mas
os países ricos já não ajudam as nações
mais pobres?
A
ajuda é irrisória. Os Estados Unidos enviam por ano 3
bilhões de dólares para a África. E têm
uma economia que movimenta hoje 12 trilhões de dólares
por ano. Em termos percentuais, a África recebe 3 cents de
cada 100 dólares do PIB americano. É muito
pouco.
5-Quanto
os Estados Unidos e outros países teriam de investir para
erradicar a pobreza?
O
problema seria resolvido se as nações ricas investissem
por ano entre 0,5% e 1% de seu PIB. Isso significaria algo como o
dobro ou o triplo dos níveis atuais de auxílio.
6-O
Brasil estaria na relação de países beneficiados
por esse tipo de ajuda?
O
Brasil tem muitos desafios, mas é uma economia muito poderosa
e moderna, quando comparada à dos países mais pobres. O
auxílio internacional deveria ser canalizado para lugares como
Haiti, Bolívia, Laos e Índia.
7-Qual
a sua avaliação sobre os programas de combate à
pobreza do governo brasileiro?
O
Brasil avançou bastante nos últimos anos, sobretudo na
área da educação. Esse processo começou
com Fernando Henrique Cardoso e teve continuidade com o presidente
Lula. É o rumo certo. Mas é preciso fazer muito mais.
Um país que deseja passar de um nível de renda médio
para um patamar mais alto deve investir pesadamente em sofisticação
tecnológica. E isso só é possível quando
há uma boa base educacional. A Coréia descobriu esse
caminho nos anos 70. Por isso, é hoje um país muito
mais rico que o Brasil.
(Revista
Exame,
http://portalexame.abril.uol.com.br/revista/exame/edicoes/0863/economia/m0081030.html,
22/03/2006)