GOVERNO
ALCKMIN
Polícia negociou com PCC antes e depois de ataques
A
cúpula da polícia de São Paulo não
negociou com criminosos só depois de deflagrada a onda de
ataques que aterrorizou São Paulo no início de maio.
Sentou-se com líderes do PCC (Primeiro Comando da Capital)
também antes do agravamento da crise.
Detalhes das
duas tentativas de entendimento constam de depoimento que Marcos
Willians Herbas Camacho, o Marcola, prestou a deputados da CPI do
Tráfico de Armas. Acusado de ter ordenado os ataques, Marcola
foi ouvido em sessão reservada, no dia 8 de julho, na
penitenciária de Presidente Bernardes (SP).
A
inquirição foi gravada. Durou quatro horas e 13
minutos. A transcrição ocupa 205 páginas (leia a
íntegra aqui).
Marcola contou que, em 12 de maio, dia em que começaram os
ataques do PCC, foi levado à presença de Godofredo
Bittencourt, diretor do Deic (Departamento de Investigações
sobre Crime Organizado).
Em encontro testemunhado por cerca de
15 autoridades policiais, Godofredo perguntou a Marcola o que poderia
ser feito para estancar as rebeliões em presídios e os
assassinatos em série de policiais. Àquela altura, só
havia duas cadeias rebeladas –Iaras e Araraquara; contavam-se
quatro policiais mortos.
Marcola diz ter pedido comida,
cobertores e direito a banho de sol para 765 presos que haviam sido
transferidos na véspera para uma cadeia de Presidente
Vesceslau. Pediu também que fosse mantida a visita do Dia das
Mães. Seria no domingo seguinte. E fora cancelada. Atendidas
às reivindicações, prometeu interceder pelo fim
da violência.
Conforme o relato de Marcola à CPI,
o diretor do Deic concordou com as exigências. “O dr.
(Godofredo) Bittencourt falou pra mim: ‘Concordo com você
e vou passar isso pro Nagashi (Furukawa, então secretário
de Administração Penitenciária de São
Paulo)’. Aí ele ligou pro Nagashi, e o Nagashi falou
simplesmente que não iria fazer concessão nenhuma, que
não tava ali pra negociar”.
Marcola disse aos
deputados que sempre se entendera com Nagashi. Estranhou a
“intransigência”. Disse que a transferência
dos presos foi interpretada nas cadeias como um “gesto
político” do secretário de Administração
Penitenciária.
“A gente tem noção
política, somos politizados”, disse o líder do
PCC. “Então a gente sabe, em determinado momento, se faz
uma situação (...) que nem essa transferência do
Nagashi. A gente sabia que ali era uma forma de ele dar uma resposta
pra sociedade, dizendo ‘ó, tranquei toda uma liderança,
isolei todos e tal’, e pronto”.
O relator da CPI,
deputado Paulo Pimenta (PT-RS), perguntou a Marcola se o objetivo do
governo paulista teria sido o de “dar uma demonstração
de força”. E o criminoso: “Pra promover o
(Geraldo) Alckmin (candidato do PSDB à presidência).
Certo que o tiro saiu pela culatra. E como! A gente é usado.
Ou não é usado?” Marcola não foi
contestado por nenhum dos inquiridores.
Dois dias depois da
negociação malograda do Deic, a cúpula da
polícia paulista dobrou os joelhos. Autoridades policiais
voaram, em avião do Estado, da capital paulista para
Presidente Bernardes, para onde Marcola fora levado. Estava também
a bordo a advogada Iracema Vasciaveo. Reuniram-se com Marcola à
noite, na sala da direção do presídio. Àquela
altura, havia 52 pessoas mortas e 57 cadeias rebeladas.
Marcola
foi instado a se comunicar, pelo celular, com líderes do PCC
em outras cadeias, para avisar que não sofrera agressões
físicas. Seria a senha para acabar com a onda de ataques.
Recusou-se. Mas indicou outra pessoa para falar ao telefone: o preso
LH, iniciais de Luiz Henrique, que se encontrava na mesma prisão
de Presidente Bernardes. Contou aos membros da CPI que a ligação
foi feita. Recusou-se, porém, a informar o nome de quem estava
do outro lado da linha (Leia mais abaixo).
Escrito
por Josias de Souza às 03h08
(Blog do Josias de Souza, http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/, 09/07/2006)